Havia três jogos para ganhar, agora só há um

O que eu vi até agora, jogador a jogador, da nossa seleção:

RUI PATRÍCIO

O fraco potencial ofensivo dos dois adversários que defrontámos até agora não o colocou verdadeiramente à prova. Não tendo culpas no golo da Islândia, não foi exposto a muito trabalho. Mas esteve sempre bem, quando houve perigo.

VIEIRINHA

Perdeu a noção do espaço no golo da Islândia, sim, mas hoje, contra a Áustria tirou um golo feito. Malgrado as boas épocas que tem feito na Alemanha, é preciso lembrar isto: Vieirinha será sempre uma adaptação e golos como aquele que sofremos são uma consequência disso mesmo. Não sei não seria de dar uma oportunidade a Cedric.

PEPE

No golo da Islândia, por muito que o José Nunes o diga, Pepe não teve culpas. Ele acompanha o outro avançado islandês no cruzamento, não “foge inexplicavelmente da jogada”, como disse o comentador benfiquista. É preciso ver as coisas como elas são e não nos limitarmos ao filtro do “brasileiro-que-jogou-no FCP”. Voltamos à mesma questão: os ataques dos dois adversários que defrontámos ainda não puseram a nossa defesa verdadeiramente à prova. Apenas de criticar aquela reação com os pés ao jogador da Islândia, que poderia ter tido consequência disciplinares.

RICARDO CARVALHO

Continua a tratar bem a bola, mas está a perder velocidade. Hoje notou-se, na primeira parte, por duas vezes, em que chegou atrasado aos duelos na queima e fez falta. Depois teve um ou dois cortes “à Ricardo Carvalho” e equilibrou-se. Tenho algum receio em vê-lo face a ataques mais poderosos e rápidos.

RAPHAEL GUERREIRO

Tem sido o melhor elemento da nossa defesa a atacar, com bastante iniciativa e bons entendimentos com o extremo, seja ele Nani ou outro. Gostava de o ver a marcar um livre. Mas para isso é preciso que o Ronaldo esteja distraído.

DANILO

Um dos patinhos feios da imprensa após o jogo com a Islândia. Cortou muitas bolas, errou passes, andou na luta, que não foi fácil, contra uns islandeses também longe de serem meninos de coro. Eu espero, sinceramente, que nunca mais jogue neste Europeu. Assim, não é valorizado e as hipóteses de sair do FCP serão menores. Para mim, é fundamental na construção da espinha dorsal da próxima época.

WILLIAM CARVALHO

Gosto da forma como estende o jogo para o ataque, mas hoje também errou alguns passes curtos que não costuma errar. Não será por ele, nem por Danilo que a posição fica enfraquecida.

JOÃO MOUTINHO

Se contra a Islândia tinha estado um pouco estático e até alheado das grandes decisões (Lopetegui diria que não quis ser protagonista), neste segundo encontro esteve mais em jogo e, principalmente na segunda parte e depois de André Gomes dar o berro, foi o maestro de que precisávamos. Não surpreende que tenha sido eleito o Man of the Match.

ANDRÉ GOMES

Eu tenho de reconhecer que este rapaz está a merecer a titularidade. Eu, que nunca gostei do seu estilo e que sempre o vi como mais um jogador sobrevalorizado pelos media vermelhuscos. Não é um jogador que me encha as medidas, mas hoje esteve muito bem na forma como ligou a equipa. Formou, com João Moutinho, uma dupla muito eficiente na pressão sobre o adversário e no lançamento para o ataque.

JOÃO MÁRIO

De facto, o alegado “melhor jogador do campeonato”, como diz o meu amigo Pôncio, não está a ter um Europeu feliz. Pela posição que ocupa e pela qualidade que tem, espera-se muito mais. Pode ser que apareça em fases mais adiantadas da competição (se lá chegarmos).

RENATO SANCHES

A sua entrada contra a Islândia mexeu positivamente com o nosso jogo porque lhe trouxe força e velocidade. Hoje poderia ter sido uma opção, a meio da segunda parte, quando o nosso meio-campo estava a dar mostras de cansaço. Fernando Santos preferiu João Mário. Deve ser o suplente, entre todas as seleções, com mais holofotes apontados sobre si, com uma devoção quase obsessiva por parte de certa imprensa portuguesa que nos dá conta de cada movimento, espirro, ou palavra é que dita sobre si.

QUARESMA

Com ele em campo, somos mais perigosos no ataque. É aproveitar nestes jogos contra equipas que se fecham lá atrás. Nem todos os cruzamentos saem bem, mas é sempre imprevisível o que pode fazer em campo. Agora, dispensam-se aquelas reações à guna que lhe podem valer  – como aconteceu hoje – cartões amarelos.

NANI

Já não é tão decisivo no um-contra-um como no passado, mas tem estado muito bem na forma como aparece na grande-área para finalizar. Hoje falhou a primeira  das muitas oportunidades que criámos e, depois, enviou uma ao poste. Titularíssimo.

RAFA SILVA

A sua entrada hoje só pecou por tardia, porque, acima de tudo, estávamos a precisar de velocidade.

EDER

Contra a Islândia entrou aos 84 minutos. Hoje, pôs o pé em campo aos 83. Acredito que contra a Hungria, se as coisas estiverem a correr mal, Fernando Santos se lembre dele aos 82. Bem, a jogar 10 minutos por jogo, nem temos oportunidade de dizer mal do rapaz.

CRISTIANO RONALDO

Não há muito que se possa dizer a favor da nossa super-estrela nestes dois jogos. Precisamos de um Ronaldo a trabalhar mais para a equipa do que à espera que a equipa trabalhe para ele. Precisamos de um Ronaldo mais simples e pragmático do que um Ronaldo malabarista que perde bolas fáceis. E precisamos que aquele sorriso parvo desapareça de uma vez por todas e dê lugar a uma atitude séria e mais altruísta. É que já não há pachorra: Ronaldo canta o hino, Ronaldo sorri. Ronaldo acaba de cantar o hino, Ronaldo continua a sorrir. Ronaldo falha um golo, Ronaldo sorri para o ecrã. Ronaldo é apanhado em fora-de-jogo, Ronaldo sorri para o árbitro auxiliar. Ronaldo cai, Ronaldo sorri para o árbitro. Ronaldo remata contra a barreira, Ronaldo sorri para os ecrãs. Contra Islândia foi assim durante 90 minutos. Parecia que tinha ido jogar com uns amigos a Marrocos. Hoje, perdeu o sorriso aos 79 minutos e, pela primeira vez, vimos “o melhor do mundo” com uma expressão de sofrimento estampada no rosto. Aquela expressão de quem sente que as coisas lhe estão a correr mal desde que ganhou a Liga do Campeões pelo Real Madrid.

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A culpa é do (insira o nome)

Os islandeses são maus, porque são fortes, porque só defendem, porque empataram e recolheram a malta toda na sua área, porque dão muito pau, porque arremessam a bola para longe com os lançamentos de linha lateral, etc., etc. Na realidade, as desculpas abundam porque empatamos um jogo que deveríamos ter ganho.

Não gostei das declarações do Ronaldo. Nem da repetição da frase feita “isto não é como começa mas como acaba” pelo Nani, pelo Quaresma e mais alguém cujo nome não me ocorre. São desculpas de mau “empatador”. Mas gostei ainda menos da depressão colectiva e da tendência para a recriminação expressa nas redes sociais.

Os toscos da Islândia  (que não são assim tão “toscos”) fizeram o que sabem fazer, com os fracos meios humanos que têm, com a (in)experiência que possuem em grandes competições internacionais e com muito empenho. Não merecem censura – nós é que partimos embalados por um 7-0 e pela cantiga de que “vamos a França para ganhar isto”. Ficar-nos-ia bem dar os parabéns aos islandeses, reconhecer a nossa azelhice e prometer fazer melhor nos próximos jogos. Era simples e era honesto.

Por outro lado, não vale a pena desatar a arranjar culpados do naufrágio e salvadores da pátria (entenda-se “Vieirinhas” e “Renatos”…) em função de um só jogo. Por exemplo, o alegado “melhor jogador do campeonato português” fez a pior exibição que eu já o vi fazer esta época: deve então o João Mário sair do 11? E foi por causa dele que falhamos quase todas as oportunidades que criamos? E o Ronaldo passou a ser um matreco convencido só porque teve uma performance infeliz?

Este empate pode ter sido uma boa forma de fazer o pessoal “descer à terra”. Mostrar que temos uma selecção acima da média, com um jogador extraordinário, mas que o equilíbrio será a nota dominante deste europeu e que, já agora, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Itália e Inglaterra são conjuntos com mais soluções do que o nosso.

 

A montanha pariu um renato

Este foi o típico jogo do Golias sobranceiro contra o David matreiro. Portámo-nos como o gigante que já tinha a vitória no papo antes de entrar em campo. A seleção que tinha dado 7 à Estónia e que, naturalmente, iria passar por cima dos estreantes islandeses. Só que não. Com algumas das nossas melhores armas em noite discreta, fomos perdulários e até nem criámos assim tantas oportunidades flagrantes que a suposta diferença entre os conjuntos sugeria. Amanhã, o país (leia-se, “A Bola”) vai exigir a titularidade de Renato Sanches, vai crucificar o Vieirinha e perguntar por que razão não entrou Quaresma mais cedo.