Tréguas

Paulo Fonseca sabia o que estava a dizer quando disse que íamos jogar a Leverkusen. No seu subconsciente, passavam as imagens daquele 4-4 dos coisinhos contra o Bayer, na década de 90. Ele sabia que algo de semelhante iria acontecer. Algo épico. Paulo Fonseca, o visionário. Renova, já (ou Colhogar, também serve).
Bem, agora a sério. Hoje é dia de tréguas, de gozar esta passagem de eliminatória, de elogiar o Licá pela ação determinante no último golo, de louvar o treinador por ter dado a Ghilas tanto tempo de jogo (o suficiente para ser mesmo decisivo), de agradecer aos jogadores a vontade e a fé. Enfim, desfrutemos deste dia como há muito não o fazíamos.

Direito de resposta: "A culpa não é só dele"

O meu post de ontem desencadeou uma verdadeira onda de emoções na caixa de comentários deste blog. É bom, porque isso significa que alguém lê o que aqui escrevemos. É ainda melhor quando se debate com argumentos e com graça. Mas não havia necessidade de criar uma suposta cisão entre portistas.

Por tudo isto, em primeiro lugar, cumpre-me dizer que eu não me levo suficientemente a sério para dar importância aos menos recatados e aos comentários mais inflamados. Gosto de conversar sobre “bola”, confesso-me um portista extremo, na fronteira do anti-benfiquismo primário, mas o que aprecio mesmo neste blog é partilhar a minha paixão pelo FCP com gente bem humorada. Discordando ou não, é para esses que escrevo. E são esses que escrevem os comentários que me fazem sorrir.

Em segundo lugar, não tenho como ambição ser coerente, nem sequer demasiado lúcido nas minhas apreciações. Se eu fosse lúcido na forma como analiso o que se passa no futebol, chegaria à conclusão que existem milhares de coisas mais importantes para investir o meu tempo. Paixão é isto: gostar sem saber bem porquê; dedicar tempo, emocionar-se e sofrer sem tentar racionalizar os sentimentos. A única forma de expressão proibida para esta paixão é a violência.

Terceiro e último: renegando tudo o que escrevi acima e sem ambição de ser exaustivo nesta resposta, vou demonstrar que não estava com os copos quando escrevi o post de ontem.

Tópico 1
O V. Pereira foi injustamente comparado com o P. Fonseca

É verdade – VP está uns furos acima do PF. Apesar do futebol dos rodriguinhos à Barcelona e da posse sem remates nem golos, as equipas do VP jogavam à bola, controlavam os jogos. Concedo também que herdou um balneário complicado, com muita gente a pensar numa saída milionária à maneira do AVB. Mas que tinha melhores jogadores ao seu dispor, isso parece-me indesmentível. Moutinho valia (e vale) mais do que os nossos atuais médios todos juntos. O “pouco” que o James fez na última época de azul e branco (12 golos em 38 jogos) é mais do que, presumo, o Quintero poderá algum dia fazer. Hulk esteve cá a primeira época do VP (e marcou uns modestos 21 golos). E, essa ninguém me tira da cabeça, os dois campeonatos foram muito mais perdidos pela soberba e incompetência alheia do que por mérito próprio (que, obviamente, também existiu). Resumindo: prefiro, de longe, o Pereira ao Fonseca, mas nenhum me agrada particularmente.

Tópico 2
O Fernandez fez história e eu não lhe reconheço esse mérito

Este simpático espanhol chegou ao Porto na primeira época pós-Mourinho, pós-Deco e, sobretudo, pós-vitória na Champions. A tarefa era complicada, a equipa tinha alguns jogadores contrariados (Costinha, Maniche, Derlei, etc., etc.) e muitas promessas de craques por confirmar (Luís Fabiano, Diego, Seitaridis e Quaresma, por exemplo). A realidade confirmou que Fernandez era um líder fraco, que conseguiu a proeza de em 19 jogos para o campeonato vencer menos de metade e perder 3.
Quanto à vitória na Taça Intercontinental, tenham lá paciência mas o Once Caldas, que teve obviamente o mérito de ganhar a Libertadores, era tudo menos uma equipa com enorme potencial e repleta de homens em vias de dar o grande salto para os grandes clubes europeus. A realidade é bem diferente e os poucos jogadores que vagamente se aproximaram de uma carreira minimamente notável no velho continente foram o Elkin Soto (fez 8 épocas no Mainz 05), o Viáfara (que jogou no Portsmouth e no Southampton) e o avançado mexicano Di Nigris, que passou sem grande sucesso pelo Villareal, aterrou no Poli Ejido (um clube espanhol extinto em 2012 que acabou a tal época em 17.º lugar… da Segunda Divisão) e fez 4 temporadas em clubes de terceiro plano na Turquia. Ou seja, é evidente que este Once Caldas que, sublinho, caiu apenas nas grandes penalidades, não era propriamente um viveiro de craques a despontar. Conclusão: o Fernandez não merece grande crédito pela façanha.

Tópico 3
O PdC já nos deu muito e este gajo está a culpá-lo

Como qualquer portista que tenha memória, eu sei que existe um antes do PdC e existirá um depois do PdC. No intervalo desses dois períodos, que tenho o grato prazer de viver, o nosso clube ganhou tudo o que havia para ganhar, ascendeu à posição de maior clube português, “descobriu” e “fez” jogadores que ficarão na história do futebol mundial, em suma, Pinto da Costa foi o responsável máximo pelo brilhante período em que o FCP se tornou o que hoje é como instituição desportiva.
Não obstante, o homem não é infalível, tem tendência para se rodear de gente pouco recomendável e de, explícita ou implicitamente, permitir a realização de negócios que são, no mínimo, de benefício muito duvidoso para o clube. E, já agora, é um gestor profissional – recebe muito bem pela função que exerce, pelo que não trabalha na SAD do FCP por mera carolice.
Isto significa que, quando “mete o pé na argola” ou tenta atirar areia para os olhos dos adeptos isso deve ser denunciado. Para lá da muito discutível escolha do Fonseca (e da sua obstinada defesa), por exemplo, a recente entrevista à Porto Canal em que atribuiu a derrota na Luz à arbitragem foi simplesmente anedótica. PdC merece reconhecimento, mas nem ele nem ninguém merece um estatuto de impunidade.

Tópico 4
O Fonseca deveria ficar até ao final: mudar agora é um erro

Como alguém referiu nos comentários ao meu post, o futebol praticado é pior do que os resultados obtidos e o Estádio do Dragão tende para estar às moscas. Se acharem isto aceitável, deixem o o homem continuar mas eu vou tratar de cancelar a minha subscrição da SportTV e arranjar sempre programa para as horas em que o Porto estiver a jogar. Mas, mais do que insistir no mau futebol e permitir a vitória total dos coisinhos, manter o Fonseca ao leme é desperdiçar a oportunidade de, perdido o campeonato, colocar em campo os Quinteros, os Kelvins e mais alguns miúdos da equipa B. Para que entre em campo alguém com coisas a provar e se perceba se servem ou não, para que se decida se vale a pena apostar neles no futuro ou despachá-los já no próximo Verão.


A culpa não é só dele

Paulo Fonseca acordou hoje a pensar que o mundo não é tão cruel como ontem à noite parecia ser: afinal, estava a caminho do Olival para mais uma palestra de ressaca e, maravilha das maravilhas, a cadeira de sonho do Paços de Ferreira está de novo vaga. Em compensação, a generalidade dos portistas acordou a pensar como foi possível chegar até aqui, como foi penoso suportar 2 anos de Vítor Pereira para acabar por ter de aturar este Fonseca.

A verdade verdadinha é que  ex-craque do Estrela da Amadora ainda não saiu da capital do móvel.  Mentalmente, o homem é um grande treinador de um clube pequeno e um miserável treinador para um clube grande. Porque não percebe que falar com o André Leão é diferente de lidar com o Fernando e que o Josué que brilhava de verde e amarelo não serve para titular azul e branco. É o chamado “erro de casting”. Porque o duplo pivot defensivo está para Paulo Fonseca como os 2 amores estão para o Marco Paulo – é uma “tara” mais do que uma “mania”.

Sim, claro, a culpa não é só dele. O homem é (mais) uma aposta pessoal do PdC que correu mal. E, como em todas as apostas pessoais que lhe correm mal (felizmente poucas), PdC tem tendência para persistir no erro. Foi assim com Vítor Pereira, foi assim com Fernandez, tem sido assim com o Fonseca. O Pereira safou-se porque tinha mais e melhores jogadores, mas sobreviveu à custa da persistente azelhice do homem da chicla. De Fernandez não reza a história e do homem que lhe sucedeu também não. O jogo de ontem foi um ponto de exclamação na desgraça exibicional do Porto 2013/14. O ponto final aconteceu antes do Natal, quando já se tinha visto como a equipa (não) jogava e ainda íamos a tempo de ganhar alguma coisa.

Quanto aos outros culpados: inevitavelmente, quem escolheu e mantém o Fonseca, quem construiu este plantel, quem vendeu tantos jogadores por somas astronómicas sem contudo conseguir criar uma situação financeiramente estável, quem pensou que, numa época de transição, sem gente com estatuto e com muito ainda para ganhar, bastaria um treinador cujo ponto alto do currículo é um brilharete na sua única época na primeira liga portuguesa. Quem permitiu que o Lucho saísse para um merecido exílio dourado sem ter meios para suprir essa saída. Quem perante todas as lacunas que a equipa evidenciava não fez melhor do que dar uma derradeira oportunidade ao Quaresma.

Olhamos hoje para o plantel do Porto e vislumbramos muito poucos grandes jovens jogadores, daqueles que potencialmente sairão por certo do clube por valores irrecusáveis: Mangala, Alex Sandro e Fernando. O resto da malta é gente nova que tarda em mostrar serviço, “consagrados” a caminho dos 30 ou atletas simplesmente banais para um clube como o nosso e vulgares demais para os PSGs e Chelseas deste mundo. É por isso que, com Fonseca ou sem Fonseca o futuro imediato não é risonho. Por outro lado, o facto do clube de Mourinho jogar agora com 3 ex-benfiquistas deveria ser motivo para refletir.

O que nos disse o dérbi da amizade

O dérbi da amizade, jogado ontem no estádio da lã de vidro, disse-nos o seguinte:
1. O Sporting padece de William-dependência. Ou então a equipa de Leonardo Jardim é um bluff. Você decide. O treinador lagartal quis inventar, colocando, Slimani, Montero (quem?) e Heldon de início, e deu-se muito mal.
2. Os coisinhos têm o ataque mais perigoso da liga, com velocidade e muitas soluções. Resta saber se vai haver, nas jornadas que restam, quem os ponha à prova lá atrás. O Sporting já conseguiu, nos 4-3, mas a defesa leonina não garante os mínimos.
3. Enzo Perez é um jogador do ca***** (já sabíamos disso, por acaso). Esteve para sair pela porta pequena, mas, para grande felicidade do treinador da chicla (que não acreditou nele na primeira época), revelou-se fundamental naquela equipa. É pena, mas poderia ter sido mais um dos erros históricos por que os coisinhos ficaram célebres.
4. Por falar em coisinhos, lá estão eles na fase eufórica. Manuel José disse, ontem, que “o Benfica ganha este campeonato disparado”. Espero que saibamos lidar com a “onda bermelha” tão bem como o fizemos no passado.
5. Para quem tinha dúvidas, não fomos nós quem levou um banho de bola naquele estádio.

Se fosse no Dragão, o garnisé saberia o que fazer

“Artigo 94.º do Regulamento Disciplinar da Liga

Não realização de jogos por falta de condições do estádio, de segurança ou dos equipamentos

1. Quando um jogo oficial não se efectuar ou não se concluir em virtude do estádio não se encontrar em condições regulamentares por facto imputável ao clube que o indica, é este punido com a sanção de derrota e, acessoriamente, com a sanção de multa de montante a fixar entre o mínimo de 12 UC e o máximo de 50 UC e com a sanção de reparação à Liga e ao adversário das despesas de arbitragem, de delegacias, de organização e do valor da receita que eventualmente coubesse ao adversário.

2. Se um jogo não for realizado por falta de condições de segurança imputáveis ao clube que indica o estádio, o clube é punido nos termos do número anterior.

3. Quando o jogo se realizar em estádio neutro é mandado repetir, sendo apenas aplicáveis as sanções de multa e de reparação ao clube visitado, salvo se as faltas previstas nos números anteriores não lhe forem imputáveis.”
E não me venham com “ah e tal, a culpa foi do vento”. Existe uma coisa chamada manutenção do espaço desportivo. Com  este tempo atmosférico, que dura há mais de um mês, era no mínimo exigível que os coisinhos andassem da perna e acautelassem qualquer hipótese de acontecer uma vergonha destas. Sim, porque isto é uma vergonha terceiro-mundista.

O garnisé, parte 2

Uma das coisas irritantes no garnisé é o facto de não ter a noção da sua pequenez e insignificância. O garnisé do futebol português é mesmo assim e repete a sua ladainha chorona como se a reiterada repetição transformasse em verdade aquilo que é puro wishful thinking.

O garnisé já percebeu que, apesar da ilusão deste ano durar mais do que é habitual, a Taça de Portugal já foi, competições europeias são só para outros e o sonho do campeonato nacional pode começar a ruir já neste fim-de-semana. Quem viu a forma como o garnisé viveu no banco de Alvalade o empate com a Académica percebeu o que lhe vai na alma – uma coisa seria entrar na Luz em vantagem, outra completamente diferente será jogar no campo do adversário com a perspetiva de passar para terceiro lugar e ficar a 5 pontos da liderança. E, já agora, em “desvantagem direta” com os dois rivais. Dói-le muito, pois dói.

É por isso que o garnisé grita, o garnisé pula, o garnisé acena, enfim, o garnisé desespera pela oportunidade de, pelo menos, chegar à meia final da taça da bejeca. Nem que seja na secretaria. Nem que seja com um truque verdadeiramente ridículo como o do “atraso com dolo”. O garnisé fala de “verdade desportiva” passando ao lado do facto do jogo do Porto não ter tido nem uma duração (decorrente dos descontos) superior à do jogo do Sbordem, nem um penalty inventado como foi o caso do voo para a piscina do Eric Dier que motivou o penalty do 1-3. A verdade é que o Porto marcou mais um golo e, uma vez mais, alguém festejou a nossa queda antes do tempo…

Fala agora a Associação de Futebol de Lisboa de “uma decisão que pode constituir um ponto de viragem para uma nova era do futebol português”. Tendo em conta que não há memória de nenhum clube ter perdido um jogo pela falha que nos é imputada, querer prevalecer tendo perdido dentro das 4 linhas significa que esta gente já perdeu a toda a vergonha e já nem disfarça. A tal “nova era” de que falam deve ser a era em que o FCP passe a perder competições por decreto no bafio dos gabinetes da Liga e da Federação… Só que isso já aconteceu: na época em que os defuntos “sumaríssimos” foram aplicados a jogadores do Porto e depois deixaram de existir. Ou na última vitória do SLB no campeonato, viabilizada pela indevida suspensão do Hulk por largos meses, devido a uma alegada agressão no túnel da Luz.

A Taça da bejeca é a competição mais insignificante do calendário competitivo português e se o Porto não a vencesse este ano esse “insucesso” seria tão marcante quanto o facto de nunca termos ganho nenhuma edição da dita taça. Além do mais, jogando como estamos a jogar, as probabilidades de sermos derrotados pelo SLB na próxima eliminatória são mais do que muitas. Porém, sermos colocados fora da competição através de um expediente de secretaria abriria caminho para muitos outros abusos e isso não pode ser tolerado. Nem que, depois disso, jogássemos frente ao SLB com os juvenis, só para aquela gente perceber o quanto vale o dito troféu para nós.

P.S. – Apesar da barraca que foi empatar em Barcelos, com um penalty de amigo falhado sobre a hora, já surgiram na imprensa coisas como “este ano, o Benfica pode ganhar tudo”. Para lá de já terem sido corridos da Champions (coisa que acontece até a clubes mais decentes…), o campeonato está muito longe de estar ganho, a Taça de Portugal é uma história que mete dragões e a Taça da Liga, se o bom senso imperar, deve seguir o mesmo padrão. Será que esta gente não aprendeu nada nos últimos 2 anos?

Nas meias

No dia em que se anunciou uma quase provável eliminação administrativa da Taça da Liga, fizemos por acentuar a depressão com uma  primeira parte “à Porto dos últimos tempos”. Falta de controlo do jogo e incapacidade de travar a rapidez dos jogadores do Estoril.
Surpreendentemente, a segunda parte trouxe um FC Porto transfigurado, em parte graças a uma maior mobilidade do nosso meio-campo, com um Herrera a mandar no nosso jogo de ataque (apesar da onda negativa, acredito muito neste mexicano), em parte graças à entrada de um Varela que abanou com a defesa estorlista. Do outro lado, um Quaresma que, não sendo deslumbrante, dá tão mais qualidade à linha comparativamente a Licá, que só lhe temos de perdoar alguns excessos.
O treinador do Estoril está com aquele ar de quem vinha aqui aproveitar a onda e eliminar, na boa, o tricampeão nacional. Diz que foram “muito melhores” na primeira parte e que o FCP acabou por ser feliz na vitória. Incha, puto, não me esqueci das tuas atitudes quando jogámos no António Coimbra da Mota.