Agora que ainda estamos no princípio

Eu já não escrevo para o Pobo há uns tempos, mas hoje resolvi abrir o coração ao que me vai na alma – ou vice-versa – e dizer umas coisas sobre esta pré-época. É aproveitar que agora ainda estamos no princípio. Vamos fazer isto por setores.

Setor 1: para não deixar entrar golos

Continua a ser um dos mistérios mais bem guardados do nosso futebol o número exato de guarda-redes que temos sob contrato. Outro mistério é, durante o mês de julho, não termos comprado nenhum. Cala-te, guardabel. Julho ainda não acabou.

Falemos dos que cá estão. José Sá e Casillas. O primeiro parece-me uma aposta segura de futuro, e naqueles três golos do PSV não podia fazer nada. O segundo parece-me uma incerteza no presente. Vi-o algo lento a atirar-se a duas bolas rematadas de fora da área – uma deu golo, a outra bateu no pose. Ou seja, o tipo de lances – entre os postes – em que “Casillas é bom”. O outro lance, daqueles em que “Casillas não é bom”, a sair a cruzamentos, valeu-nos uma bola na barra. Calma. O homem não tem de estar a 100% no primeiro jogo da época, depois de um Europeu em que aqueceu banco (injustamente, na minha opinião) e depois de ver nascer o segundo filho. Quem é pai sabe que as noites mal dormidas têm efeitos dramáticos na produção laboral.

Setor 2: para não deixar chegar a bola à baliza

Eu quero começar por dizer que aquele Felipe entra de caras no onze titular. E nem o erro de posicionamento (quis regressar rapidamente à sua zona de ação de central e, inocentemente, abriu uma avenida ao avançado) e nem o autogolo no jogo com o PSV me fazem ter outra opinião.

Portanto, para começar, temos aqui um bom central, rápido, impetuoso, mandão. O problema é mesmo quem o acompanha. Estando Indi fora das cogitações, restam Chidozie, Reyes e Marcano. Sim, também levo as mãos à cabeça.

Chidozie tem de ser emprestado. Dos três, é aquele em quem vejo maior margem de progressão. Mas ainda não está preparado e precisa de evoluir jogando com regularidade, coisa que não pode nem deve fazer esta época no Porto. Também convém decidir o que querem fazer dele: médio-defensivo, como é de origem, ou defesa central, sempre uma adaptação?

Reyes é, para mim, um caso muito bem definido: é para vender. É assumir que aquele jovem mexicano que se portou tão num Torneio de Toulon qualquer há uns anos, que aquela grande esperança falhou. Não é jogador para o Porto, para as exigências do nosso campeonato, muito menos de uma competição europeia. Lopetegui não ajudou, é certo, em Munique, mas… é vender, tentar vender.

Fica Marcano. Fica Marcano? Será até um razoável suplente ou quarto central, sim, mas face à idade que já apresenta, talvez o melhor seja levá-lo a Espanha e receber o que derem por ele. Tenho a dizer que lhe vejo algumas qualidades e que, para mim, é melhor do que Martins Indi, mas na época passada fez demasiados disparates.

Conclusão: temos, nesta altura, de ir ao mercado por um ou dois centrais. Um deles, pelo menos, de inegável categoria, para entrar no onze, ao lado de Felipe. E ir à equipa B buscar um dos miúdos, o Verdasca ou o Palmer-Brown, poderá ser uma opção bastante aceitável para fazer o quarto central.

Relativamente às laterais, acredito que Maxi Pereira e Layun continuarão a ser indiscutíveis, mas enquanto que o mexicano tem em Alex Telles um concorrente de respeito – gostei muito da velocidade e qualidade de cruzamento do brasileiro – já o uruguaio vê… Varela como alternativa. Eu estou muito agradecido ao Varela, creio que todos estamos, mas, sinceramente, é ele a nossa alternativa a Maxi Pereira? Não brinquem com os adeptos, por favor.

Este texto já vai longo e ainda só falei de dois setores. Vou ficar por aqui, afinal. Amanhã ou depois, falo da malta que tem de fabricar e marcar os golos.

Back to business as usual

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FCP: vendemos, trocamos, emprestamos e compramos

Alex Telles (Inter/Galatasaray), Felipe Augusto (Corinthians), João Carlos Teixeira (Liverpool) e Zé Manuel (Boavista) são entradas confirmadas. Jonathas (Real Sociedad) é nome de que se fala como próxima contratação. Rafa (Braga) continua a ser uma miragem.

Da equipa principal que terminou a época anterior, Marega está confirmado no Guimarães; Chidozie, Bueno e José Angel dificilmente irão ficar na equipa principal. Segundo as últimas notícias, o recém chegado Zé Manuel também já não conta para Nuno Espírito Santos. A situação do Suk é uma incógnita.

Vitor Garcia, Ivo Rodrigues, Gonçalo Paciência, Adrian Lopez e Licá já estão à parte e são alegadamente para sair por empréstimo. Ninguém fala do Ghilas mas o homem tem contrato com o FCP.

Rafa Soares (Rio Ave), Ramos (ao Chaves) e Gleison (ao Paços de Ferreira), 3 elementos da equipa B que venceu a Segunda Liga em 2015/2016 são empréstimos confirmados.

Voltam a ser emprestados Mikel Agu (ao Paços de Ferreira), Leandro Silva (ao Paços de Ferreira), David Bruno (ao Tondela), Fidelis (ao Portimonense), Ricardo Nunes (ao Chaves), Fabiano (ao Fenerbahçe), Tiago Rodrigues (a0 Nacional da Madeira) e Sami (ao Akhisar, o que quer que isto seja…).

Resumindo, continua a dança dos empréstimos de alguns jogadores que não são propriamente “jovens promessas” e que nem sequer chegaram a jogar pela equipa principal. O guarda-redes Ricardo foi contratado para ser emprestado sucessivamente. Idem para o Tiago Rodrigues. Idem para o Sami. O caso do Zé Manuel nem dá para perceber.

O drama dos centrais persiste: Chidozie não é mau mas (ainda?) não é jogador para a equipa A; continuamos à espera que alguém faça o favor de levar o Marcano e o Martins Indi – o caso Maicon resolveu-se com algum dinheiro a entrar e direitos sobre 2 jovens brasileiros de segunda linha (para a equipa B?); o lengrinhas mexicano voltou de Espanha, mas também não parece ser homem para altos voos.  E falta saber o que vale o Filipe.

No meio campo a coisa está confusa e tudo pode acontecer: Herrera, Danilo e Ruben Neves, alegadamente, “têm mercado”, mas eu diria que são exatamente estes que deveriam ficar… André André deve estar garantido, apesar de uma segunda metade da época para esquecer; não faço ideia do que vale o João Carlos Teixeira; o Sérgio Oliveira merece ficar (mostrou qualidade e raça quando teve, finalmente, chances de jogar); de entre Evandro e os regressados Otávio e Quintero muito dificilmente ficarão mais do que dois. Continua a faltar um 10 de qualidade confirmada (ou um “falso 9” ou um médio que apareça na área) – o Herrera tem feito esse papel (o Brahim poderia ter feito e o Bueno era suposto fazê-lo) mas seria bom ter uma alternativa mais credível do que o Otávio e o Quintero. Eu continuo a suspirar pelo Rafa (Braga).

Quanto ao ataque, não percebi a insistência contratual no Varela, estou a aguardar que consigam despachar o Aboubakar e, especialmente, o Brahimi.Para o eixo, se vier alguém, conviria que fosse um jogador para “entrar de caras no onze” e como não há dinheiro para estes luxos, o melhor é dar a oportunidade ao André Silva e manter o Suk como backup. As alas também não têm ninguém garantido: o Corona deve ser a primeira opção, o Hernani deveria ficar, o Varela e o Brahimi deveriam ser para despachar. O rapaz do Boavista parece já ter guia de marcha e não conta. Bueno, entre lesões e não utilizações, nem deu para perceber se é bueno ou mauzeno.

Apesar das promessas (Rafa Soares no plantel principal – PdC dixit, em março de 2016) e do valor comprovado pela vitória da equipa no seu campeonato, o único que parece sobrar da B é o André Silva. Mas Podstawski já merecia uma oportunidade “a sério”.

Parecem ser demasiadas dúvidas para quem terá que jogar o acesso à Champions, creio eu, a 16 ou 17 de agosto. Mas antes isto do que uma carrada de emprestados do Mendes com ordem para jogar sempre, ou uns rejeitados com nome (tipo o Johny Deep Italo-argentino da época transacta).

Pontapé na gaiola dourada

IMG_5162Para quem, como eu, foi tão crítico em relação à forma de actuar da nossa equipa ao longo dos 6 jogos que precederam a final, seria fácil dizer que estava errado, agora que todas as falhas, todos os erros, todas as hesitações foram esquecidas por esta conquista. Mas não é verdade: a equipa de Portugal foi demasiado conservadora nos embates com equipas notoriamente mais fracas (Islândia, Áustria, Hungria e Gales) e surpreendentemente expectante nos confrontos com equipas de valor mais próximo (Croácia e Polónia).

Daí que, ironicamente, fizesse (finalmente) sentido jogar contra a França como sempre jogamos neste torneio. Frente a uma equipa muito moralizada, com jogadores confiantes e contando com o melhor marcador da competição, teríamos que assumir menores riscos, usar mais o contragolpe e atacar pela certa. Claro que o incrível sucesso obtido legitima todas escolhas de Fernando Santos, por mais discutíveis que possam ter sido. E isso é o que fica. É isso que ficará na memória de quem viveu isto.

O jogo foi, como dificilmente poderia deixar de ser, um prolongado sofrimento. Sem fazer maravilhas, os franceses criaram oportunidades em quantidade suficiente para vencer nos 90 minutos e a maior de todas, um remate ao poste no prolongamento, teria por certo decidido a final. Um pouco antes, Griezmann tinha falhado o desvio de cabeça na pequena área portuguesa.

Por contraste, o nosso ataque foi literalmente inofensivo durante 90 minutos, tal como Rui Patrício se revelou intransponível sempre que necessário – para parar a cabeçada de Griezmann na primeira parte, o remate violento de Sissoko na segunda e grande oportunidade de Giroud antes de ser substituído. De um total de 9 remates em 120 minutos (metade do que fizeram os franceses), apenas um dos dirigidos à baliza de Lloris teve lugar nos 90 minutos iniciais (remate acrobático do Quaresma na sequência de um cruzamento demasiado largo do Nani que ia saindo bem). Os outros dois ocorreram no prolongamento: a cabeçada do Éder e o remate vitorioso deste mal-amado. O livre do Raphael que foi foi á barra, sendo porventura a melhor oportunidade portuguesa antes do golo, entra noutra categoria estatística.

Mas os números permitem também corroborar a sensação que ficou no final: Portugal venceu com justiça porque tendo tido a sorte de resistir no “período regulamentar”, foi quase sempre superior no prolongamento. Algo que se explica com a notória quebra física dos bleus mas também com a mudança radical que a entrada do nosso número 9 em jogo ditou. Antes e depois do golo, Éder ganhou disputas de cabeça que antes tinham sido sistematicamente dominadas pelos centrais franceses, segurou a bola no ataque e sofreu faltas que permitiram ganhar metros no ataque e momentos para a equipa respirar melhor. No tempo extra e apesar de terem estado 12 minutos em desvantagem, os franceses apenas conseguiram fazer um remate digno de figurar nas estatísticas da UEFA  – um pontapé de Martial que nem sequer chegou à baliza portuguesa.

No que diz respeito à “moral” do resultado: a seleção de futebol ofereceu aos 11 milhões de portugueses um motivo para comemorar, mas este resultado foi muito mais do que isso para emigrantes e luso descendentes que vivem em França. Foi a resposta a muitos anos de humilhações, algumas resultantes do mais puro racismo e arrogância cultural, algumas auto-inflingidas pela ignorância, pela falta de poder para dizer não, pelo hábito de fazer o que os outros não querem e serem discretos ao ponto de nem serem notados. É esse o motivo porque este texto se chama “Pontapé na gaiola dourada”: nenhum outro filme terá ilustrado de uma forma tão clara, ainda que com humor (e, por vezes, de uma maneira eternecedora) o modo de vida dos portugueses em França, como o pequeno sucesso do luso decente Ruben Alves.

A verdade é que nem se quiséssemos imaginar uma forma ainda mais emocionante e arrebatadora de Portugal vencer a final do Euro conseguiríamos escrever uma história assim: sem o nosso melhor jogador quase desde o início, encostados às cordas até ao limite dos descontos, para depois emergir para o jogo no prolongamento e ver o nosso patinho feio fazer o golo decisivo. Um conto de fadas desportivo. Uma lição de humildade, tenacidade, querer, capacidade de superação e, claro, alguma sorte. Uma justiça poética.

 

Tão perto do céu

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Amanhã, para lá de uma final de uma competição futebolística muito importante, ocorrerá um choque de nações, de culturas, de histórias, de tristezas, alegrias, riqueza, pobreza e muito mais. Será o choque da humildade com a arrogância, das sopeiras com os artistas, dos pedreiros com os arquitetos, das empregadas de mesa com os chefes, do centro com a periferia.

Portugal é muito mais do que a imagem dos que partiram para França com pouco dinheiro e pouca formação como bagagem. E os portugueses de lá são hoje uma comunidade multifacetada, presente em todas as dimensões da vida francesa, da arte à indústria, do desporto à haute cuisine.  Mas subsiste a imagem da varina de preto num luto eterno, da empregada que toma conta do prédio, do clube dos portugueses onde a única leitura são os jornais desportivos do país de origem. Persiste o preconceito de que somos uma espécie humana menor do que os glamorosos franceses.

Esse desprezo transpira nas palavras escritas e faladas dos que consideram quase indigno Portugal estar na final do Euro 2016. Que não merecemos, que Ronaldo não finta uma dúzia (e aqui surgem as inevitáveis comparações com Messi), “só” joga em força, “só” usa a velocidade. É verdade que as exibições da seleção não encheram as medidas a ninguém, em nenhum dos 6 jogos disputados. É verdade que aquela tática não fará ninguém converter-se a esta modalidade. É verdade que o percurso, acaso ditado pelo sorteio e pelas classificações da fase de grupos, nos foi favorável. Porém, a equipa de Fernando Santos fez por merecer e nunca foi beneficiado por arbitragens -bem pelo contrário. A França não pode dizer o mesmo…

A seleção tem uma triste história de insucessos no confronto com os franceses. Batidos no épico 3-2 de Marselha, em 1984 e novamente vencidos, em 2000, pelo “golo de ouro” de Zidane. Nas duas ocasiões, fomos batidos por seleções francesas que venceriam a respetiva competição, equipas formadas por jogadores de invulgar qualidade – no caso da equipa de 2000, os então campeões do mundo em título. Está na altura de interromper este fado e nunca terão estado criadas as condições como agora para que isso possa acontecer.

Na final, sejamos gregos, sejamos o que for necessário para vencer, porque mesmo que isto seja apenas futebol, está muito mais de que desporto em causa. Não é uma guerra. Não é um combate. É uma afirmação de orgulho, uma manifestação de transcendência. O resto, o que eles pensam de nós, como disse o Ronaldo, que se foda!

A engenhosa vitória do tédio

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Se isto é o futebol do futuro, não existe futuro para o futebol, ou melhor, sempre que pensar em investir 2 horas de vida em entretenimento desportivo, vou escolher o xadrez, o golfe ou a equitação – o primeiro estimula mais o cérebro, o segundo envolve passeatas pela natureza e o terceiro mete cavalos e saltos “a sério” e em quantidade, não só penteados equídios e pulos ocasionais.

Ao sexto jogo, o Engenheiro ofereceu-nos uma vitória. Tal como Deus, que só criou o homem e os animais ao sexto dia, só que no caso do Nando Santinhos ainda não é tempo de descansar. E na verdade demorou seis e meio, mas já lá vamos.

Sim, este não é um texto apoteótico, nacionalóide. Nem um texto choninhas, daqueles tipos mal agradecidos que nem com a final se satisfazem. Este é um texto de um gajo que gosta de bola, que vibra com a seleção nacional mas que não confunde os meios com os fins, o entretenimento com a objetividade, enfim, futebol e resultados.

Como qualquer tuga interessado em bola e que tem uma ponta de identificação com os demais tugas, ontem sentei-me em frente à tv com uma réstia de esperança de que Portugal fizesse um jogo épico, com golos, emoção a rodos, e que pusesse fim ao brilharete daqueles voluntariosos e esforçados galeses de um modo categórico. A verdade é que isto não aconteceu, ainda que durante o jogo tenham existido momentos de brilhantismo e, claro, que tenhamos feito aquilo que os belgas (bem mais favoritos do que nós) foram incapazes de fazer.

A primeira parte do jogo foi um longo bocejo, igual a tantos bocejos que vivemos nos jogos precedentes de Portugal neste Euro 2016. Escutei ao intervalo um daqueles sábios comentadores dizer com ar de grande cientificidade que tinha sido um “período de estudo mútuo”…

Mesmo habituado a escutar grandes parvoíces Freitaslobísticas ditas em modo “estou aqui para vos iluminar”, esta custou-me muit0 a engolir. Então a clássica “fase de estudo” já vai em 45 minutos de duração?… Quando comecei a ver bola a sério, lá nos idos dos anos 80, a coisa não ia além dos 10 minutos iniciais. E se estudassem em casa? E se fizessem os TPC? Então os gajos já não sabem como os outros jogam depois de tanto artigo, comentário, vídeo, relatório e estatística? Depois de quase um mês de competição?

Explicação do tédio – teoria número 2: “estivemos a “adormecê-los” para desferirmos a estocada decisiva na segunda parte”. Depois da coisa ter acontecido, esta teoria parece-me muito bem esgalhada, inteligente e até genial, quase tanto como “os prognósticos só no final do jogo”…

Eu confesso que aqueles 45 minutos me deixaram desanimado. Não com a perspetiva de um resultado adverso, mas com a ideia de mais 45 ou até 75 minutos do mesmo. Os galeses, descontando as poucas cavalgadas do Bale e uma ou outra bola atirada para a nossa área, foram quase inofensívos. Os nossos fizeram um pouco mais, tiveram mais bola, mas mantiveram-se sempre mais focados em não deixar jogar do que em arriscar a felicidade.

Se isto é o futebol do futuro, não existe futuro para o futebol, ou melhor, sempre que pensar em investir 2 horas de vida em entretenimento, vou escolher o xadrez, o golfe ou a equitação – o primeiro estimula mais o cérebro, o segundo envolve passeatas pela natureza e o terceiro mete cavalos e saltos “a sério” e em quantidade, não só penteados equídios e pulos ocasionais.

Sim: se o que me espera como adepto deste desporto é isto, é pouco crível que dentro de um ou dois anos perca tempo com o assunto. Eu e mais uns milhões de pessoas. É que se o importante é ganhar (e os vencedores tendem a esquecer como chegaram lá, especialmente, se for de um modo pouco meritório ou até ilícito), não se esqueçam que só um pode fazê-lo e que todos os adeptos dos outros países, dos outros clubes, valorizam sobretudo o jogo, a emoção dos golos, o rasgo criativo, o mérito da construção coletiva, a façanha individual, em suma, aquilo que faz e fez deste desporto o mais seguido, o mais valorizado, o mais internacional.

A segunda parte foi diferente. Claro, por causa dos golos. Nunca saberemos se a equipa portuguesa veio efetivamente com indicações para atacar e arriscar mais, ou se aqueles minutos em que tudo que é decisivo aconteceu foram produto de acasos. Fiquei satisfeito, obviamente, até porque o primeiro golo foi uma conjugação fantástica de qualidade futebolística, capacidade atlética e querer, com a particularidade de termos feito a diferença naquilo que era tido como um ponto forte do adversário. Ronaldo livrou-se da marcação sem bloqueios e sem aldrabices, subiu, subiu, subiu… e rematou de cabeça como alguns não fazem com os pés. Foi um momento à “melhor do mundo”, que aconteceu na altura certa. Melhor mesmo, só se o repetir na final e for tão decisivo quanto este. Foi bom e libertador. Foi o terceiro e mais feliz momento do Ronaldo neste Euro, depois do arremesso do microfone da CM TV para o lago e dos 2 golos à Hungria. Por esta ordem de importância.

Depois dos golos, o jogo mudou. Aconteceu tudo demasiado depressa para os galeses conseguirem processar e reagir em conformidade. Se é que conseguiriam. Se é que seriam capazes. Se é que aqueles 11 portugueses o permitiriam. Até ao momento em que o madeirense fez a diferença os do País de Gales acreditavam em tudo: no Presto, nos Glutões, na virgindade da Virgem, no Trump, na regressão do Brexit e inclusive na chegada à final. O primeiro golo foi como um atropelamento coletivo na passadeira – eles não estavam a contar com aquilo, naquele contexto, naquela altura. E foi como se os atropelados por um carro desgovernado ainda se estivessem a tentar levantar e, antes de se poderem recompor minimamento do sucedido, lhes passasse um camião por cima. Isto foi o efeito do segundo golo: Game over!

Resumindo: há quem não ligue nada ao modo como lá chegamos e só se interesse na finalidade; há “líricos”, como eu, que não se revêem naquela modorra e entendem que o desporto, este desporto, é mais do que vitórias sonolentas, rigores táticos e triunfos cagões. Sim, cagões! Ou alguém acha que vencer uma modesta seleção de Gales, sem metade do seu (pouco) génio futebolístico, é um grande feito? Isto é a “normalidade”, tanto quanto os 4 a zero ao intervalo como que os franceses mataram as ilusões dos corajosos islandeses. Não é banal chegar à final, tem muito mérito, foi um esforço brutal, é um feito para recordar, mas não podemos esquecer que foi produto de pouco brilhantismo e muita sorte com a “escolha” dos adversários. Ficamos no grupo mais fraco e, em 6 jogos de uma fase final de uma grande competição, não enfrentamos nenhuma das seleções de “primeira linha” – nem França, nem Alemanha, nem Itália, nem Inglaterra, nem Espanha. Factos.

Por tudo isto, estou satisfeito por podermos ser campeões no domingo mas espero mais. Não do Ronaldo, nem do Pepe, nem do Nani,  nem do Patrício, nem do Quaresma, nem da maioria dos restantes (vá lá, do João Mário espero um bocadinho melhor e do Eliseu espero que não jogue…). Espero é que o Fernando Santos nos dê a oportunidade de ver o melhor que aqueles 23 podem fazer em campo. Sei que é pedir muito: agora que estamos quase lá, contra a França a jogar em casa ou contra os atuais campeões do mundo, vamos abdicar da fórmula mágica que nos permitiu aqui chegar?!… Mas é o que me faria orgulhoso, pela nossa seleção e, sobretudo, por este desporto.

 

O triunfo do Homo Pragmatoikos

Portugal_ em gregoEnquanto a malta discute se o melhor português no jogo de ontem face à Polónia foi o Renato Sanches ou o Pepe, aquilo que me ocorre dizer é que gostaria de ver um bocadinho de futebol “a sério”. O que tenho visto é a nossa seleção jogar futebol “à grega”. E jogar “à grega” é chato, muito chato de ver. Claro que é mais aborrecido perder, ser eliminado, e de vitórias morais estamos nós fartos. Mas que seria bom vencermos um jogo categoricamente, lá isso era.

Já lá vão 5 jogos e nem um triunfo com brilho conseguimos. Aliás, a única coisa parecida com um triunfo foi a vitória suada no prolongamento face à Croácia. Porém, conseguimos o fundamental:”live to fight another day”.  Perdoem-me os pragamáticos, mas futebol é mais do que isto, tem de existir emoção pela positiva, com golos e equipas a tentar ganhar. Por agora, o que temos é poucos golos e equipas a tentar não perder (sim, porque a culpa do aborrecidamente emocionante jogo de ontem é também dos polacos, que foram sempre mais “cagões” e medrosos dos que os nossos).

Paradoxalmente, é aqui que se impõe fazer um mea culpa: afinal, o Renato Sanches tem lugar naquele onze. Não por ser o jogador estratosférico merecedor de todos os elogios possíveis e imaginários, mas por ser um dos poucos (ou talvez o único) que tem a audácia de querer ganhar, de querer sempre jogar para a frente, apertar o adversário, correr com a bola, rematar, fazer acontecer. O resto da malta está toda muito concentrada nos seus papéis de “não desiquilibrar a equipa”, “não largar a marcação”, “ser rigoroso taticamente” e outras coisas que futebolês inventou para traduzir uma orientação tática onde o evitar perder se sobrepõe sempre ao querer ganhar. Exceto o Ronaldo, claro, que está tão comprometido com o seu papel de herói da pátria que tem falhado coisas inexplicáveis nos intervalos das expressões birrentas e das espreitadelas para o ecrã do estádio. O Renato, na sua irresponsável juventude, é o oposto de tudo isto – quer correr, chutar à baliza e marcar penalties (confesso que me ia dando uma coisinha má quando percebi que ele seria o segundo a tentar…). É por isso que, ao contrário do que era a minha convicção, deve jogar de início ou, no mínimo, jogar muitos minutos vindo do banco.

Mais 2 ou 3 coisas sobre o jogo de ontem: ainda bem que o William não pode jogar a meia-final e ainda bem que os polacos são uma equipa tão “conservadora” quanto este Portugal do Fernando Santos.

William parece ter sido ferrado por uma mosca Tsé-Tsé (o golo polaco é resultante de uma falha do Cédric mas quem deixa o ponta-de-lança polaco à vontade é o William) e os adversários passam por ele como se estivesse parado (e está, demasiadas vezes). Claro que quando o homem encosta neles, aquele corpinho de gigantone faz maravilhas, mas durante a primeiro meia hora, aquilo foi um terror. No resto do tempo, foi o que tem sido costume.

Neste jogo, ao contrário da eliminatória anterior, fomos superiores ao nosso adversário e, nessa medida, fez-se “justiça”. A verdade, porém, é que com um pouco mais de audácia (qualidade global?!…) e arrojo depois do 1-0 , os polacos teriam a questão resolvida a seu favor antes do final da primeira parte. Porque os 20/25 minutos iniciais de Portugal foram medonhos em termos defensivos, a equipa parecia confusa, ninguém marcava ninguém e, enfim, o segundo golo polaco poderia perfeitamente ter acontecido. Mas contentaram-se em defender a vantagem, deixaram os portugueses “assentar” o seu jogo e pagaram por isso. Só não pagaram mais cedo porque voltamos a não ver um penalty claro assinalado a nosso favor.

Nota final: o Eliseu, dentro do género, não esteve mal – os cruzamentos foram sempre para onde não era suposto, os adversários parecem sempre ser mais rápidos do que ele, mas o homem aguentou-se. Mas, previsivelmente, face à Bélgica, com um Hazard ou um Carrasco pela frente, é mesmo necessário contar com o Raphael. E com o Ronaldo. E com o Pepe. E com o Renato Sanches da primeira parte. E com mais audácia.

* “Portugal” em grego.