E voltámos a ser felizes em Gelsenkirchen

Seis anos depois, voltámos a ser felizes no Arena Auf Schalke. O penúltimo classificado do campeonato alemão ganhou 2-0 à equipa de Jesus. Ele que tinha dito que o Benfica estava cada vez melhor. Ele que tinha dito que, na época passada, na Europa, houve duas equipas: a sua e o Barcelona. Ele que disse, após a vitória sobre o Hapoel de Telavive, que os israelitas eram uma grande equipa, e que iam tirar muitos pontos aos outros (hoje, perdeu em casa com o penúltimo do campeonato francês). Um visionário, este Jesus.
Se, por um lado, tenho sentido alguma apreensão pelo facto de Roberto não sacar um frango há pelo menos três jogos, por outro, apraz-me registar que a sua azelhice tem contagiado outros colegas de equipa, como constatámos hoje, nos lances dos golos do Schalke 04. A cotação de David Luiz, essa então, deve ter subido em flecha.
No momento em que escrevo estas alegres palavras, o visionário Jesus fala para a SportTV e ainda não se desculpou com o atraso na chegada dos jogadores do Mundial, o que me está a deixar perplexo.

O Lobo deixou cair a pele de cordeiro?

Ontem tropecei por acaso no Jogo Jogado, da TSF, que conta com os comentários de Luís Freitas Lobo e João Rosado, moderados por Mário Fernando.
De João Rosado ficou a pérola de que o FC Porto, não tendo de jogar a Liga dos Campeões, é uma “equipa mais descansada”. Recorreu à comparação com o facto de o Braga, no ano passado, ter sido eliminado das competições europeias e, por isso, ter feito um grande campeonato. Tudo a ver com o FC Porto, com certeza! Diz ele que este ano “há apenas a Liga Europa” e não há a necessidade de dividir argumentos entre o campeonato e a Liga dos Campeões, por isso o FC Porto é a tal equipa mais descansada. Sim, só dá para rir, sr. João Rosado.
Mas mais graves e sérias, isto porque vindas de um suposto amante da táctica e do futebol jogado nas quatros linhas, foram as declarações de Luís Freitas Lobo. Deixo-vos a transcrição de grande parte delas e cada um que tire as suas conclusões. Eu tiro as minhas.
“Neste momento, sim, a equipa teve um bom início do ponto de vista pontual, não tanto do ponto de vista exibicional. O próprio André Villas Boas já referiu o primeiro jogo com a Naval como o jogo menos conseguido do Porto… O Porto ganha perto do fim, num lance muito infantil de um defesa da Naval… para não lhe chamar outra coisa… que dá um penalti.
Agora, a verdade é que a equipa teve um calendário mais sereno, tirando o jogo com o Braga – de facto, foi um grande jogo – mas teve um campeonato que lhe permitiu ter este embalo, que lhe pode permitir agora seis jornadas a ganhar consecutivas. Na época passada, o Braga também o conseguiu, e nem por isso foi campeão.
Agora, são coisas diferentes, como é evidente. Percebe-se que este Porto tem outro estatuto, outra força, tem outras bases. Foi construído em cima de outro barro, dentro e fora do relvado. Penso que esta época toda a estrutura do Porto esteve mais atenta a todos os poderes que envolvem o futebol português, e de facto a equipa está de outra forma, a estrutura está de outra forma, os jogos correm de outra forma. A equipa dentro do campo tem um comportamento táctico muito seguro.”
As minhas observações a estas declarações:
1. A azia do senhor perante a vitória na Naval. A forma como qualifica o penalti provocado pelo jogador da Naval. E a intencional omissão das boas exibições posteriores que têm vindo em crescendo.
2. A justificação da nossa série de vitórias por um “calendário mais sereno”, mas o aviso de que o Braga fez o mesmo e não foi campeão. Expressão de algum desejo para esta época?
3. A insinuação de que, nesta época, o nosso sucesso está alicerçado em situações menos claras com a afirmação “esta época toda a estrutura do Porto esteve mais atenta a todos os poderes que envolvem o futebol português” é inadmissível e deveria originar uma acção decidida do nosso departamento jurídico. Ainda dou de barato aquele “dentro e fora do relvado” (pode estar a referir-se ao trabalho realizado nas contratações), mas esta frase deve ser alvo de repúdio em todo os nossos canais oficiais e não só.
Para ouvir o programa (e a parte que interessa, a partir do minuto 23), clicar aqui. É curioso verificar a diferença entre o tom de voz com que fala do FC Porto – podia estar num velório – e que utiliza para falar dos outros assuntos.

Andamacaçar

Quando era puto e brincava às caçadinhas, esta era a palavra mágica: “andamacaçar!”. Muitos anos depois, apetece-me dizê-la ao treinador do… ora deixa cá ver… 1, 2, 3, 4… 5º classificado (e com hipóteses de, ainda hoje, descer mais um bocadinho). Jorge Jesus volta a moralizar as tropas, repetindo até à exaustão “estamos cada vez melhor” ou “estamos a melhorar de jogo para jogo”. Mas não lhe adianta nada. A nove longos pontos de distância está o FC Porto, a jogar bem, a marcar grandes golos e a sofrer poucos ou nenhuns. E com Hulk, o homem do momento. Ou Luís Filipe Vieira, Rui Costa e companhia desencantam forma de fazer eclipsar o Incrível para a segunda metade da época ou arriscamo-nos a ser campeões depois do Natal. A armadilha do túnel foi brilhante, mas já ninguém cai nela. Também não acredito que David Luiz seja incumbido da missão de lesionar gravemente um colega de profissão, ainda para mais depois de tanta amizade revelada no estágio da selecção brasileira. Tem de ser uma situação muito bem engendrada para nos tirarem o fenómeno Hulk. Não que a equipa deixasse de ganhar sem ele em campo, facto que já aconteceu esta época, o que indica a superior qualidade do plantel, mas, com Hulk, aquele jogo que, por vezes, não sai, ou está teimosamente empatado, pode, de repente, ficar resolvido.
Ontem, contra a Olhanense gostei muito de João Moutinho, da forma como torna simples o complicado e põe sempre a equipa a jogar em progressão, fazendo-o, ainda para mais, com muita classe. Outro destaque, na minha opinião, tem de ir para Álvaro Pereira, finalmente o defesa-esquerdo que já fez esquecer Nuno Valente (Cissokho não conta para estas contas).
Uma última palavra para o facto de Moretto ter sido recebido no Dragão com vaias, assobios e insultos. Eu não percebo. Sinceramente, estava preparado para lhe dedicar um forte aplauso, admitindo até a hipótese de levar um estandarte com a frase “Obrigado, Moretto!”, devido ao facto de, em primeiro lugar nunca ter vindo para o FC Porto, em segundo lugar ter sido o protagonista de episódios tão hilariantes da história futebolística deste país. Quem não se lembra daquele Janeiro divertido no SLB? E ainda assobiam o gajo?

O poder mudou para o Norte

A frase que serviu de mote para este texto foi dito hoje, ao final da tarde, por Manuel dos Santos, o impagável representante do SLB no debate semanal da Antena 1. E é com ela, ou com a ideia que está subjacente, que os detractores do Porto tentam justificar as nossas 5 vitórias seguidas e os desaires do Benfica.

Só que esta intoxicação mental poderá fazer vítimas lá para as bandas da Segunda Circular, mas não afecta toda a gente. Exemplo disso são os comentários aos dois jogos desta jornada em que participaram FCP, SLB e SCP. Ninguém fala da forma irregular como o Cardozo controlou a bola no lance do 2-0, do perdão do segundo amarelo ao Coentrão, nem do penalty que o Hulk sofreu; em contrapartida, fala-se de dúvidas no penalty sobre o Varela (que é nítido e não resultou em vantagem para o Porto) e de supostas certezas que nenhuma imagem confirma no alegado penalty cometido pelo Rolando. A cavalo de coisas deste tipo se cria a ideia falsa e desonesta de que o FCP foi beneficiado em todos os jogos e o SLB roubado sempre que perdeu pontos.

Fora destas brincadeiras, o que é interessante ver é o quanto mudou o Fernando, como joga alegremente o Bellushi, que evolução fantástica tem registado o Maicon e, sobretudo, a utilidade de um Moutinho cuja importância no nosso meio campo cresce em cada jogo disputado. Varela continua letal, mesmo quando não faz exibições de encher o olho e o mesmo se passa com Radamel Gaitan (just kidding…), mas na proporção inversa – mesmo marcando menos golos, abre muitos espaços. Hulk é, mesmo escorregando em todos os lances, absolutamente decisivo sempre que arranca em velocidade.

O Jesus pode falar de “medo” de uma aproximação, supostos receios motivados por potenciais perdas de pontos do Porto, mas se os dois clubes continuarem a jogar da forma que o estão a fazer, o campeonato estará resolvido antes do Natal. E não será em benefício do milagreiro da Luz…

O escroto do Valdemar

Esta vitória na Madeira deixou o segundo classificado a quatro pontos de distância, o que, não sendo muito, já é alguma coisita. Para além disso, esta vitória deixou o Valdemar Duarte com um formigueiro esquisito no escroto, tal o incómodo que revelou perante, segundo ele, a falta de ambição do Nacional. Tudo lhe fez espécie: a apatia do banco do Nacional, a apatia dos jogadores em campo, a falta de remates à baliza por parte do Nacional. E nem faltou a mais que previsível comparação deste Nacional com o Nacional do jogo com o nono classificado. Até o facto de o treinador do Nacional dialogar muito com os elementos sentados no banco o incomodou. Sugiro ao Valdemar que corte a unha do dedo mindinho. E que, já agora, perceba que o Nacional não jogou com uma equipa qualquer.

A palavra de Jesus

O Benfica ganhou os dois últimos dois jogos oficiais. Seguidos. Para Jorge Jesus, foram duas vitórias contra duas grandes equipas. Os israelitas são uma grande equipa. E o Sporting de hoje é uma grande equipa, “superior ao Sporting da época passada”. Não sei quem é que Jesus pretende converter com estas sábias palavras, mas admito que já haja benfiquistas com mais de dois neurónios, que não vão nesta conversa. Ou então eu sou um optimista por natureza.