Coação é isto

Se a Comissão de Instrução e Inquéritos da Liga não considerar o comportamento do Sporting como coação aos árbitros, então não sei o que será isso da “coação”. Mais vale retirarem esse ilícito do nosso futebol e, a partir daí, valerá tudo para condicionar, ameaçar, intimidar.
Falar de árbitros, antes e depois dos jogos, está-nos no sangue. Faz parte. Mas, caramba, nunca um clube tinha ido ao ponto de querer responsabilizar criminalmente os homens do apito, incluindo, pasme-se, os da época anterior, altura em que nem sequer estavam no ativo os atuais dirigentes lagartais. De entre tudo o que foi organizado pelo Sporting na semana anterior ao jogo da roubalheira, esta questão dos processos em tribunal e das indemnizações foi a que mais me chocou. Ou divertiu, ainda não me decidi.
Acredito que isto não vai dar em nada ou, na pior das hipóteses, para o Sporting, será decidido lá para junho ou julho com derrota para os viscondes, contanto que não implique alteração na classificação. De uma comissão que puniu Jesus com suspensão num período em que não havia competição é de esperar tudo.

Não ajoelhou, mas rezou uma avé maria

Jesus nunca analisa os jogos que perde e, normalmente, irrita-se com as perguntas dos jornalistas, quando estes lhe pedem que explique a razão das derrotas. Quando ganha, Jesus transforma-se no catedrático, expondo as suas virtudes de estratega e de visionário. Jesus sabe tudo antes dos jogos, prevê tudo, domina tudo. Jesus, o omnisciente. Quando perde, como aconteceu hoje, irrita-se e entra naquele tipo de discurso nebuloso que ninguém percebe, nem mesmo ele.

Vata, 24 anos depois

Se o Vata diz que foi com o ombro, eu acredito. Se o Vata diz que não iria mentir ao próprio filho, com quem estava a sós, eu também acredito. Eu também tenho um filho e seria incapaz de lhe dizer que tinha marcado um golo com o braço, sobretudo se estivesse plenamente convencido que tinha sido com o ombro. Porque eu acho que próprio Vata acredita cegamente que o marcou com o ombro. Se ele acredita, é a verdade dele, é a verdade que pode contar ao filho. E ninguém tem nada que ver com isso. 24 anos depois.
O golo, com narração francesa:
O golo, com narração de Gabriel Alves:

Il mio cuore è blu e bianco

Não vamos, porque passámos aos quartos-de-final, dourar a pílula e esquecer que, hoje, sofremos muitíssimo em largos momentos do jogo, com jogadores em claro sub-rendimento, a mostrar incapacidade para fazerem parte do onze titular. Agora, é da mais elementar justiça render homenagem a Luís Castro, que fez o que tinha a fazer: pôr em campo Josué e Ghilas com 20/25 minutos para jogar, num tudo ou nada que era importante assumir. E atenção: aos 81 minutos, resistiu a meter um Herrera ou até um Mikel para povoar o meio-campo e recuar as linhas, e pôs em campo um avançado. Quase me apetecia dizer que, com Paulo Fonseca, teríamos tentado chegar aos penaltis, mas, se calhar estarei a ser demasiado injusto com o ex-treinador.
Não foi em Alvalade (pelas razões que se conhecem), foi em Nápoles: este jogo pode ter marcado uma viragem importante no resto de época que vem aí. Obrigado, Fabiano. Obrigado, Ghilas. Obrigado, Quaresma. Obrigado, Luís Castro.

Guardião

Não vou falar da vitória da verdade desportiva leonina a que assistimos hoje em Alvalade. Não vou falar das declarações idiotas de Leonardo Jardim, Adrien & companhia. Não vou falar da tremideira que a nossa defesa revelou. Não vou falar da questão física que parece existir na equipa.
Vou falar do Helton. E será porventura injusto para ele que um texto destes surja numa altura em que se lesionou tão gravemente. Ele que já tanto fez pelo clube, que tanto defendeu as redes da nossa equipa, que é voz de comando, de revolta, de garra, de querer. Ele que também falha, como os outros. Um campeão que, hoje, teve o azar de se lesionar sem bola, naquele momento em que a bota se prendeu ao solo e não o deixou continuar. Naquele sítio onde a relva não nasce, como disse um dia um jornalista brasileiro. Acho que nunca tinha visto um olhar tão angustiado num nosso guarda-redes. Nem na pior das derrotas. Por isso estamos aqui para lhe mostrar todo o nosso apoio e desejar que a recuperação seja completa. Dure o que durar.

Luisão, number three, Luisão, one, two, three

Em 2009, Manuel Machado, então treinador do Nacional, disse que “um vintém é um vintém, e um cretino é um cretino“, referindo-se ao gesto dos quatro dedos de Jorge Jesus (os coisinhos acabavam de marcar o quarto jogo na baliza madeirense).
Hoje, em Londres, o catedrático da chicla voltou a repetir o gesto, virando-se para Tim Sherwood com três dedos em riste, logo após o terceiro golo, marcado por Luisão. Um gesto execrável e saloio. Uma coisa que a mentalidade inglesa nunca vai entender porque o futebol é um jogo de gentlemen, onde a lealdade e o fair-play têm muita importância.
Por isso foi natural que o treinador do Tottenham se tenha travado de razões com Jesus, tendo havido pronta intervenção do quarto árbitro, que nem se deve ter apercebido do que sucedeu. E foi cómica a tentativa de Raul José, já preparado para evitar qualquer excesso do seu treinador principal, mas que foi autenticamente empurrado por Jesus, em mais uma cenazinha triste, na senda do que nos tem habituado.
A quem tudo isto não passou despercebido foi aos jornalistas ingleses, que apertaram com Jesus na conferência de imprensa, levando o treinador dos coisinhos a começar por explicar que em Portugal não estamos habituados a tanta proximidade entre os treinadores, e que quando ele, Jesus, invadiu o espaço de Sherwood, foi alertado para o facto por este, tendo Jesus feito a mesma coisa quando, alegadamente, o treinador dos da casa também fez o mesmo. Uma situação que não passou daquilo, segundo JJ.
Em Portugal, com a imprensa vermelhusca do costume, a coisa teria ficado por aqui, mas os ingleses têm essa péssima mania de não suportar a mentira. Então questionaram Jesus sobre o gesto dos três dedos, ao que a triste figura respondeu, dizendo que se estava a referir ao número três, da camisola de Luisão, que foi quem tinha marcado aquele golo. Azar dos azares: Luisão jogou com o número 4 na camisola. Não bastava mentir mal, ainda por cima tinha de ser humilhado em público.
Bem, os adeptos do clube do garrafão podem muito bem levar o nome de Portugal aos quatro cantinhos da Europa, mas a partir de hoje, em Inglaterra, a imagem do portuga ficou seriamente afetada por esta execrável, rústica e mentirosa figura. Prefiro, mil vezes, ter no banco do meu clube alguém que se engana no nome de um adversário do que uma figura deste calibre.

Coisas que acontecem

Façamos de conta que não nos lembramos que António Figueiredo foi vice-presidente dos coisinhos. Façamos de conta, também, que não nos lembramos que António Figueiredo foi o presidente do Estoril que permitiu, juntamente com a cunha leal, aquele jogo no Estádio do Algarve. Olhemos, apenas, para António Figueiredo, o adepto vermelhusco, que, no ano passado, dizia isto, antes do Benfica-Estoril. Ora, ele é a prova provada de que o melão ainda não desinchou, a avaliar pelas suas declarações de ontem à RR. Para ouvirem, basta seguirem esta ligação e clicarem no botão do lado esquerdo com  legenda “António Figueiredo recorda Benfica-Estoril da época passada“. Quem não tiver possibilidade ou não se quiser dar ao trabalho, aqui está a transcrição:
“No ano passado, os dois pontos que se perderam com o Estoril fizeram com que o Benfica não fosse às Antas festejar o título. Mas festejou durante quase o jogo todo. A sete segundos do fim é que as Antas se levantaram, porque até lá o silêncio era absoluto. Até sete segundos antes do jogo acabar, já com o prolongamento a decorrer, o silêncio era absoluto. Não se via azul, só se via gente branca. Mas, enfim, são coisas que acontecem, o futebol é isso mesmo.”
A escolha das palavras e o tom de voz são elucidativos. Está lá tudo: ódio ao FCP e desprezo pelo mérito da nossa vitória. E a justificação através do cliché “são coisas que acontecem” serve para tudo. Tanto para a derrota naquele campeonato, como para um qualquer mergulho do Sulejmani ou para um golo irregular na Grécia. São “contingências do futebol”, como ouvi o José Nunes, comentador da Antena 1, referir-se ao lance que deu a vitória sobre o PAOK.
No Restelo, a coisa foi tão escandalosamente evidente, que todos os órgãos de comunicação social, sem exceção, referiram o golo mal invalidado ao Belenenenses. Mas aquilo que certamente encheria uma página inteira, caso o beneficiado fosse o FC Porto, não passou de uma referência lateral em A Bola, que preferiu, como era expectável e obrigatório, destacar a obra-prima de Gaitán (fui só eu que achei aquele golo “normal”, face à velocidade do jogador e ao adiantamento do GR?). Até a forma como se qualifica as exibições de trampa do “campeão anunciado” é indicadora de que “este ano tem mesmo que ser”. Joaquim Rita, na Antena 1, dizia que o jogo mostrou “Um Benfica resultadista, que abdicou da nota artística”.
Em relação à questão do Miguel Rosa, compreende-se o silêncio de parte a parte. É embaraçoso para o Belenenses admitir que preferiu salvaguardar os interesses do adversário em detrimento dos seus (a troco de quê, mais lá para a frente se saberá). Para os coisinhos, os verdadeiros paladinos da verdade desportiva, será certamente difícil explicar mais uma evidência deste “fazer as coisas por outro lado”, ainda para mais quando a polémica já está para lá da esfera dos “jogadores emprestados”. Acredito, porém, que qualquer dirigente vermelhusco veja nisto mais uma contingência do futebol, “coisas que acontecem” no campeonato português.