Sem razões para sorrir

Acreditar no título parece ser já um exercício de loucura a que poucos portistas se dedicam nesta altura. A equipa não depende de si própria e vê o seu adversário direto passar por cima dos adversários com goleadas convincentes. A onda vermelha estende-se por uma comunicação social sedenta de vendas e cliques e edições extra. E estas merdas contam, claro. Está tudo encaminhado. Só espero que não tenhamos de apagar a luz e ligar os aspersores no jogo da penúltima jornada.
Em Coimbra, hoje, não fizemos um grande jogo, mas, ainda assim, o suficientemente bom para sairmos de lá com os três pontos. A equipa está nos limites, com jogadores a pedirem – já – o final da época, e o que vem do banco não dá garantias de excelência. Na frente somos Moutinho, Jackson e as correrias dos laterais. Lá atrás somos uma grande tremideira e atrapalhação. Uma exibição deste tipo contra os coisinhos pode dar muito mau resultado.
Por falar em coisinhos, não percebo como há ainda quem duvide do valor de Lima. Diz-se que o tivemos na mão, mas que não o quisemos. Gostava de saber com que argumentos, sinceramente. Serão os mesmos que levam à contratação de um Liedson que apenas aquece o banco e engorda a conta bancária?

A probabilidade do (des)consolo da Bejeca

Existe uma pseudo-regra que diz que quando algo pode correr mal, corre mesmo mal. Olhando com atenção para o percurso recente do FCP, é impossível não encontrar traços que definam uma trajetória negativa.

Depois das goleadas ao Gil Vicente e ao Guimarães, a equipa entrou numa fase menos fulgurante, com algumas vitórias bisonhas (Beira-Mar e Rio Ave) e alguns empates comprometedores (Olhanense e Sporting). Em quase todos estes jogos, incluindo no que disputamos em casa com o Málaga, tivemos sempre o domínio da posse de bola, nuns casos com mais dinâmica e pressão (como foi o caso do jogo da Champions), noutros casos com trocas inconsequentes frente a adversários que jogam para empatar ou perder por poucos. Seja qual for o jogo, o que foi evidente foi o escasso número de oportunidades de golo que criamos.

É essencialmente por isto que, tristemente, não me surpreendeu a eliminação da Champions. Claro que um Moutinho diminuido fisicamente é um handicap substancial, que um golo em cima do intervalo é complicado para quem sofre e galvanizador para quem marca e, obviamente, que jogar com 10 durante a segunda parte não é fácil. Mas também poderíamos dizer que vencemos em casa os espanhóis com um golo irregular, num jogo em que dominamos mas criamos muito pouco perigo. Que o Málaga viu um golo anulado que, honestamente, deveria ter sido validado. Que tivemos uma única oportunidade evidente de golo em todo o jogo de hoje. É curto para quem tem o nosso histórico na Champions, mesmo sabendo que o Málaga tem um bom conjunto de jogadores, mas não é nenhum clube de topo ao nível europeu.

Pois bem, se isto foi mau, imaginem quão problemático poderá ser perder pontos no confronto com o Marítimo, que nunca foi um adversário fácil para nós quando jogou nos Barreiros. Mesmo sabendo que uma eventual desvantagem de 3 pontos pode ser  superada no confronto direto que está marcado para a penúltima jornada, a verdade é não me admirava que dominássemos os vermelhos nos 90 minutos e não conseguíssemos criar oportunidades de golo – é algo que tem acontecido com frequência.

Para retomar o assunto do post do meu amigo Guardabel, aqui fica a comparação do nosso calendário com o dos coisinhos:

23.ª jornada
Marítimo-FCP e Guimarães-SLB – probabilidades a favor dos vermelhuscos;

24.ª jornada
Académica-FCP e SLB-Rio Ave – mais uma vez, mais hipótese de bronca para o nosso lado;

25.ª jornada
FCP-Braga e Olhanense-SLB – o Braga é mais complicado mas o lodaçal de Olhão é local para surpresas;

26.ª jornada
Moreirense-FCP e SLB-Sporting – não vencer os de Moreira de Cónegos é crime mas este Sporting não mete medo a ninguém;

27.ª jornada
FCP-Setúbal e Marítimo-SLB – finalmente, uma situação probabilística favorável!

28.ª jornada
Nacional-FCP e SLB-Estoril – os madeirenses são capazes do melhor e do pior enquanto que os amarelinhos têm um histórico de confrontos com o SLB marcados pelos penalties desKarados e por convenientes jogos em casa disputados no Algarve;

29.ª FCP-SLB – matar ou morrer… se ainda estivermos vivos!

30.ª jornada
Paços-FCP e SLB-Moreirense – o nosso adversário é a revelação do ano; o adversário deles deverá despedir-se uma vez mais da Primeira Liga.

Em suma, 5 jornadas que lhes são favoráveis, uma que é um empate “técnico” (a 25.ª) e duas a nosso favor (27.ª e o confronto direto no Dragão). Com jeitinho, este ano ainda ficamos nós agarrados ao título da Taça da Bejeca… Quanto à Champions, esqueçam o assunto: o objetivo realista das equipas dos campeonatos periféricos dificilmente pode ser ir além da fase de grupos.

O estado das coisas

Há que reconhecer que o panorama não está muito animador. Com o nível baixo que a maioria das equipas do campeonato apresentam, é muito difícil que o Benfica perca pontos até ao jogo do Dragão. Aquilo que ainda pode ser disfarçado com uma defesa certinha ou um autocarro competente, não tem escapatória possível com ataques sofríveis. Falta poder de fogo a 90% da equipas portuguesas e, ontem, com o Gil Vicente, tivemos mais uma evidência disso mesmo.
Nós, sem o onze titular em forma, temos alguma probabilidade de voltar a perder pontos. Nesta altura, gostaria que a SAD refletisse seriamente sobre o estado a que chegou um plantel que muito prometeu, mas que, vistas as contrariedades a que já foi sujeito, se revela curto e, pior do que isso, desequilibrado em termos de qualidade.
Neste âmbito, e apesar de o seu futebol, na minha opinião, não ser melhor do que o nosso, continuarem a beneficiar da proteção de todos os anjos, incluindo os de preto, há que reconhecer que o Benfica trabalhou bem a constituição do seu plantel, principalmente no ataque. Ora, um candidato ao título tem de ter muita preocupação com o ataque. O FCP, na minha opinião, preocupou-se em demasia em garantir uma boa estrutura defensiva – que, realmente, tem – mas descurou aquilo que traz vitórias, golos: jogadores em qualidade e quantidade suficiente, no ataque, para não permitir oscilações de rendimento. E já não falo do meio-campo, onde, face à curva descendente em que Lucho parece ter entrado na segunda volta, uma lesão de João Moutinho é catastrófica.
Eu também acredito que vamos ganhar ao Benfica na penúltima jornada. Mas, infelizmente, também desconfio que vamos perder mais pontos noutros jogos. Se assim não acontecer, espero que me lembrem este texto quando festejarmos o tri.

Pólvora seca

Este foi o primeiro Sporting-Porto da minha vida em que não conhecia uma boa meia dezena de jogadores do Sporting. Joãozinho. Ilori. Dier. Bruma. Fokobo. Desculpem, mas quem são estes gajos? Jogámos contra um conjunto de miúdos cheios de genica e boa vontade. Não quero tirar o valor a esta criançada. Apenas lembrar que são miúdos que andam pelos juniores e pela equipa B dos lagartos. Só isso. O primeiro contra o décimo-primeiro. Trinta pontos de distância. Jogámos com mais um jogador a dez minutos do final. Não marcámos um golo. Empatámos. Isto são frases curtas porque não consigo articular frases mais longas. Ainda estou em choque.
Este campeonato condena-me a repetir a mesma ladainha  Temos um grande 11 titular, mas um plantel muito limitado. Lesionam-se os dois jogadores em melhor forma e vamo-nos abaixo. Ficamos sem Mangala e entra um Maicon que acumula distrações e erros de avaliação. Lesiona-se o Moutinho e ficamos órfãos de quem pense o jogo e lhe dê coerência. Lucho está há demasiados jogos a fazer número. Defour é um bom ator secundário, mas não tem perfil para protagonista. Fernando destrói como ninguém, mas constrói aos solavancos. E não há mais ninguém (desculpa lá, Castro).
Depois há o remate. Tenho reparado que, de há uns três ou quatro jogos para cá, temos estado no mínimo desastrados nesse capítulo. Hoje, voltou a acontecer. As oportunidades que tivemos, ou foram por cima e ao lado, ou foram à figura de Patrício. Não se pode dizer que o guarda-redes do Sporting tenha feito uma defesa de grau de dificuldade elevado – essa ficou para Helton  – porque simplesmente os remates foram sempre contra ele.
Depois, os livres diretos. Pólvora seca. Os nossos adversários já não se devem importar de fazer faltas à entrada da grande-área. Somos inofensivos. Não temos ninguém que, com consistência, as meta lá dentro. Maicon marcou dois livres diretos na pré-época. Recentemente um pela equipa B, um balão desde o seu meio-campo. Mais nada. Danilo parece que tem chuto forte. É uma questão da bola ir à baliza. Pode ser que um dia acerte. James calibra sempre mal o pé. Parece que já marcou umas duas ou três vezes desde que cá está, mas tentou umas sessenta.
Ainda haveria muito para escrever sobre este jogo e o pós-jogo. Falar individualmente de quem esteve muito abaixo do que sabe e pode. Falar de quem custou milhões, mas tarda em justificar o investimento. Falar de quem tarda em regressar à melhor forma. Falar do bom trabalho do árbitro e da forma como a comunicação social do costume já está a adulterar as coisas. Falar de como amanhã a onda vermelha vai arrasar o país. Mas não me apetece. E escrever este texto já custou o suficiente.