Eusébio está bem, o courato pode avançar

Foi com grande emoção e uma lagrimazinha no canto do olho que Portugal assistiu, ontem, em direto, ao aparecimento em público de Eusébio, o melhor jogador luso-africano da década de 60. Aquele que alguns apelidam de “Rei” apareceu aos seus súbditos ao 10º dia após o internamento. A minha mãezinha – que tem uma vértebra solta benfiquista da parte do meu avô – disse-me hoje: “Coitadinho, estava mesmo com faltinha de cor…“.
O país foi sendo informado, quase ao minuto, sobre o estado de saúde do antigo jogador, com artigos em catadupa, a qualquer hora do dia. Fiz uma pequena compilação dos títulos nos sites dos dois jornais desportivos anti-FCP que exemplifica isso mesmo:
quarta-feira (21)
eusébio internado
médicos otimistas relativamente a eusébio
quinta-feira (22)
“vamos rezar por eusébio” (humberto coelho)
coluna envia mensagem a eusébio
situação de eusébio está estacionária
eusébio encontra-se estável
sexta-feira (23)
eusébio passou bem a noite
eusébio prestes a deixar cuidados intensivos
“eusébio está em boas mãos” (o presidente dos coisinhos)
sábado (24)
domingo (25)
eusébio está a evoluir bem
segunda-feira (26)
eusébio deve ter alta na quinta ou sexta-feira
terça-feira (27)
eusébio sofreu episódio hipertensivo menor
eusébio está estável mas passou pelos cuidados intermédios
quarta-feira (28)
eusébio deve regressar ao quarto
eusébio só vai ter alta no sábado
quinta-feira (29)
pantera negra já regressou ao quarto
eusébio está praticamente recuperado
sexta-feira (30)
eusébio está curado e vai ter alta amanhã
sábado (31)
eusébio sai hoje do hospital
eusébio já teve alta médica
eusébio disse que quer ver o benfica campeão
Como podemos ver, de falta de informação ninguém se pode queixar. Só faltou uma emocionada e sacrificada ida à janela do quarto acenar à multidão. As pageviews que isso havia de dar!
Falando ainda em informação, calculo que a profissão de jornalista não seja fácil. Selecionar e reportar toda a informação, nacional e internacional, que nos chega ao segundo, fazer estatísticas, escrever artigos, bajular o slb, promover os jogadores do slb, denegrir o FC Porto – gerir tudo isto não é fácil para quem abraçou esta nobre profissão. É pois com olhar condescendente que compreendo o “lapso” do Record, na sua edição de ontem, quando apresentou um bonito mapa europeu com todos os títulos e respetivos vencedores. Vejam com os vosso olhinhos (a seta bermelha serve para orientar):

Um fim anunciado

Antes de tudo, convirá dizer que hoje a equipa esteve bem, VP fez substituições com coerência e que nos faltou alguma sorte (e um Hulk mais lúcido e menos individualista). Mas convirá também acrescentar que quem não conseguiu ganhar ao Apoel em casa estaria a ser muito optimista ao achar que “agora só faltava ganhar ao Zenit”. Especialmente contra equipas que defendem bem e têm gente rápida na frente para manter os nossos defesas em sobressalto. O Porto das últimas semanas recuperou a dinâmica coletiva, a solidariedade e o querer, mas isso não chega para marcar golos – não criamos oportunidades em quantidade nem temos, para além do Incrível, alguém que consiga resolver jogos sozinho.

Hoje tivemos muito Moutinho, uma exibição exemplar do Fernando, um jogo enorme do Otamendi e um James que brilhou nos pormenores. Mas tivemos Hulk em demasia (do pior que há, tentando ser o herói da noite e sendo o trapalhão de serviço), um belga menos influente do que o que precisávamos, muito pouco Álvaro Pereira, um Varela cada vez mais inconsequente e um Kleber inexistente. O resto do pessoal cumpriu esforçadamente mas a verdade é que Helton não fez uma defesa digna desse nome, Maicon esteve muito bem a defender mas tem limitações óbvias a atacar nas ala e o Djalma demonstrou que talvez seja jogador para o Porto mas foi perdendo folgo até sair.

Esta eliminação é consequência de erros anteriores, de falhas múltiplas, em primeiro lugar, da liderança do clube, que fez uma má gestão das vendas e contratações, gastando olimpicamente em jogadores que não tem lugar no onze ou que nem sequer estão por cá, e deixando num projecto de ponta-de-lança a missão de ser o matador que Falcão foi. Em segundo, a culpa é de VP, que é um líder fraco, que só sobreviveu por teimosia de PdC e por ter mantido em aberto o apuramento com aquela vitória feliz na Ucrânia. Por último, é indesmentivel que, em determinados momentos, mesmo que condicionados pelas alucinações tácticas do treinador, alguns jogadores não fizeram o que estava ao seu alcance, nomeadamente, Fernando, Moutinho, Fucile e mesmo James.

A insistência de VP no 11 de hoje é sintomática de duas coisas: que não temos um avançado centro de dimensão europeia e por isso Hulk é obrigado a jogar no meio e que o treinador se agarrou à fórmula que lhe deu resultados como se de uma jangada se tratasse, mesmo abusando de uma solução de recurso quando já tinha os 2 laterais direitos disponíveis. Maicon nem sequer é uma experiência com potencial de adaptação – é uma solução de recurso para o lugar e não deveria ter passado disso.

O que fica agora é a Liga Europa – com que motivação estes jogadores vão enfrentá-la? – bem como um campeonato que VP se arriscará a perder se não tiver uma alternativa decente para o centro do ataque e se Danilo não valer o que o Porto terá pago por ele (é alegadamente o segundo jogador mais caro da história do clube… e não contamos com ele para uma fase crucial da época!). Fica também menos margem de manobra para não vender Álvaro Pereira (embora me pareça óbvio que não contratamos uma alternativa por 9 milhões para a deixar na bancada…) ou até outros jogadores menos determinantes (como Guarin ou Rolando).

Benfica eliminado da taça

O segundo classificado foi ontem derrotado pela primeira vez, esta época, em jogos oficiais, e um dos responsáveis por esta derrota chama-se Roberto. Fatal como o destino. Jesus ficou, mais uma vez, de fora da Taça, e atribuiu a derrota à “felicidade” do Marítimo, cujos golos saem “uma vez na vida”. Normal. As derrotas do clube “mais grande” nunca se devem ao mérito e à qualidade do adversário, mas antes à “felicidade”, à “sorte”, ao “acaso”. Pelo contrário, todos os sucessos do clube do garrafão resultam de uma enorme capacidade de trabalho, num esforço de laboratório, quase científico, a aperfeiçoar as táticas e as técnicas do jogo. Técnicas que depois são postas em prática como ontem se viu naquele penalti fantasticamente arrancado pelo espanhol “ex-1-golo-por-jogo”. Uma maravilha só mesmo igualada pela sintonia entre treinador e jogadores que naquele clube se vive, como este vídeo precisamente comprova.





(foto gentilmente cedida pelo meu amigo poncio)