O canto do dragão e o gelo da águia

Estavam os Sétima Legião a abrir o concerto na Casa da Música quando recebi a sms de um amigo com um bonito e singelo “Campeões, caralho!”. Há noites perfeitas. Ou quase. Depois de 20 anos de espera, podia finalmente rever ao vivo uma das bandas da minha vida, logo em noite de consagração do 26º campeonato do meu clube. Para ser completamente perfeita, era ter a Scarlett Johansson à minha espera em casa. Mas não se pode ter tudo.
Pelos lados da segunda circular, os tempos são de algum desnorte. A malta insulta Jesus, os jogadores, o presidente. Acho que até se insultam a eles próprios por terem chegado a acreditar que, com cinco pontos de avanço, tinham o campeonato no papo. Está divertida a cena, até porque a imprensa amiga já começou o desfile de nomes para reforçar a próxima época. Há que desviar as atenções.

Ganhou o melhor

Eu não consigo torcer pelo Sporting nem pelo Benfica. Em nenhuma circunstância. Nem que o jogo seja contra o campeão de Saturno e da vitória dependa a sobrevivência da raça humana. Mas hoje, antes de começar esta meia-final, estava naquela, tipo, que se lixe. Era-me completamente indiferente o resultado. Bastaram dez minutos de jogo, porém, para ter passado a desejar a passagem dos espanhóis. E isto graças a quem? Aos iluminados jornalistas da SIC, que deram um festival de “desinformação” em nome do já tradicional patriotismo bacoco. O árbitro foi tendencioso e o jogo ficou marcado por uma pretensa falta que precedeu o 2-1, antes do intervalo: foi esta a ideia que nos quiseram impingir ao longo do jogo. Uma conspiração, por certo, para colocar o Bilbao na final. Ou então para prejudicar o Sporting. Como se viu nos sucessivos perdões ao Carriço. Nos próximos dias, prevejo um depósito de dois mil euros na conta do árbitro para o caluniar.
Quanto ao jogo, ganhou o melhor. Ponto.

Números

12
Hulk marcou o primeiro golo do FC Porto contra o Beira-Mar. Os números da assistência foram 33,412. Toda a gente sabe que o número da camisola do jogador que marca o primeiro golo do FC Porto faz parte dos últimos (ou do último) dois dígitos da assistência. A TSF “descobriu” esse pormenor há meses e tratou-o como uma curiosidade. Hoje, Rui Santos gastou quinze minutos a falar nessa “preocupante” falta de rigor, e exortou a Liga a olhar para este caso. Sim, porque se o Defour marcar – e ele tem o número mais alto do plantel – poderá chegar aos trinta e cinco o número de adeptos fantasma em determinado jogo. Trinta e cinco em mais de trinta, quarenta, cinquenta mil! Decisivo, senhor Rui Santos! Impugna-se o campeonato?
Da sua análise à jornada, retive o seguinte: o FC Porto não deslumbra. O Benfica empolga. O FC Porto está perto de ser campeão. Pois é, Rui Santos, temos pena.
30
No dia em que o Dragão viu uma das mais bonitas homenagens ao Presidente Pinto da Costa, ficámos a saber que as paredes da Luz voltaram a ser embelezadas com frases elogiosas a Luis Filipe Vieira, lembrando as promessas que vem fazendo aos adeptos ao longo dos últimos anos. “Vamos investir no futebol e ganhar não 1 título, mas 2 ou 3 seguidos, LFV 2009” ou “Ninguém terá tanto sucesso em Portugal como o Benfica”, LFV 2007 foram duas delas, de um conjunto de afirmações que marcam uma diferença abismal entre este vendedor de ilusões e o nosso Presidente, que, pelo menos que me lembre, nunca fez qualquer promessa aos seus adeptos. E a diferença de resultados é assombrosa.
7
Deu-me especial gozo ver a forma como Cristiano Ronaldo celebrou aquele golo em Camp Nou. Até porque já começo a ficar farto do futebol rendilhado do Barcelona. É que já cansa tanta filigrana, tanto meínho. E Mourinho continua a ser o maior, não obstante a forma triste como saiu do FC Porto. Dá-me gozo vê-lo ganhar campeonatos atrás de campeonatos nas ligas mais difíceis do mundo.

Circo Cardinal

Vem aí uma desinteressante e ridícula final da Taça da Liga. Valha-nos ao menos o circo Cardinal, que se instalou há dois dias neste marasmo (o FCP em primeiro, ex-dirigentes dos coisinhos a malhar em Jesus e Vieira, …, enfim, o filme do costume) para trazer animação ao país desportivo. A coisa começou por ser engraçada: falou-se em vingança da ex-mulher do árbitro auxiliar. Agora passou a confusa.  Expliquem-me como se eu fosse benfiquista: um vice do Sporting deposita dois mil euros na conta do homem da bandeira e tudo não passa de uma armadilha? Nas vésperas de um jogo do seu clube? A sério. Expliquem-me.

ACTUALIZAÇÂO (20h21): Estou neste momento a ver a reportagem do Telejornal. Afinal foi uma carta anónima. Afinal era para beneficiar o Marítimo. Fiquei ainda mais confuso. 

Nódoa, manchas e outras coisas incríveis

Calimeros

Esta Liga ainda não terminou (sim, com VP não é garantido que o Porto vença na Madeira ou que não fiquem pontos por ganhar com o Rio Ave e o Sporting) mas os Coisinhos já atiraram a toalha ao chão: ensaiaram a ladainha em Londres e agora é sempre a cantar: “fomos prejudicados”, “este jogo fica marcado por decisões que lesaram o Benfica” e o clássico interno “este campeonato fica manchado”. A parte irónica deste discurso desculpabilizador é o facto de, tanto em Stamford Bridge como em Alvalade, o SLB ter perdido pela margem mínima em jogos de onde poderia facilmente ter saído goleado.

Vamos então falar de manchas

A memória selectiva destes mal-agradecidos funciona de um modo peculiar e nem é preciso ser exaustivo para o provar: lembram o 3.º golo do Porto na Luz e esquecem, entre outras coisas, a expulsão do Maxi que ficou por fazer mesmo no final do encontro; recordam o penalty que Soares Dias não marcou no 1.º minuto de jogo com o Sporting e varreu-se-lhes das cabecinhas o 2.º penalty que o Garay cometeu na mesma partida; evocam um penalty em Coimbra e esquecem o descarado voo para a piscina do Nolito no Estádio dos Barreiros;  alegam dualidade de critérios em Guimarães fazendo vista grossa ao golo do empate marcado em fora-de-jogo com que saíram de Barcelos ou, mais recentemente, a forma vergonhosa como bateram um Paços de Ferreira que acabou com 9 num jogo em que Maxi e Bruno César ficaram inexplicavelmente em campo até ao fim depois de terem cometido inúmeras atrocidades. Aliás, o uruguaio nem sequer deveria ter podido alinhar (se o apito final do juiz da partida da Luz não tivesse deixado impune a agressão a James Rodriguez).

O que se passou para lá da cortina de fumo

Os nossos portaram-se muito bem em Braga. Sim, num jogo muito equilibrado fomos felizes. E essa felicidade tem um nome: chama-se Hulk. E fomos mais equilibrados também: sem Fernando, temia o pior, que era o cenário vivido em Barcelos. Mas, felizmente, uma semana depois de ter dito que o nosso belga não valia metade do que vale o seu compatriota do SLB, o homem decidiu fazer o melhor jogo da época – com a habitual colaboração de Moutinho, este duplo pivot defensivo secou o meio campo do Braga (Mossoró nada produziu, Hugo Viana esteve intermitente e o resto dos “guerreiros do Minho” lutavam muito mas perdiam quase sempre) e ainda teve tempo para atacar.

Esta dupla serviu inclusive para disfarçar mais uma exibição pálida do Lucho, a inconsequência habitual do esforçado Kléber e a inusitada tendência para asneirar do nosso defesa esquerdo uruguaio. Ao intervalo, o Guardabel dizia que estávamos a jogar com 10 e eu respondia-lhe que o 11 “em falta” poderia ser  o Álvaro Pereira, o suposto “matador” brasileiro ou até o “missing in action” James Rodriguez. No lado positivo ficaram os dois centrais (Rolando fica bem no banco), a lucidez do Sapunaru depois de injustamente amarelado e, claro, o homem que criou os nossos quatro lances de golo  (dois desperdiçados pelo Lucho, um soberbamente defendido pelo Quim e outro que James desperdiçou), marcando na única jogada em que alguém o serviu.

Uns são mais incríveis do que os outros

Na verdade, moralmente falando, o Braga de Leonardo Jardim e Salvador é o vencedor desta Liga: com o refugo ou as sobras dos ditos “grandes” (Quim, Miguel Lopes, Nuno André Coelho, Hélder Barbosa, Ukra, Alan, Custódio, Hugo Viana, Nuno Gomes e Ruben Amorim), uns brasileiros de segundo plano ou até ilustres desconhecidos, totalizando um investimento 6 ou 7 vezes inferior ao do Porto, conseguiram arrancar uma sequência de vitórias fabulosa e perderam o campeonato na recta final, em dois jogos com adversários directos que, diga-se em abono da verdade, poderiam facilmente ter caído para o seu lado. Não me parece que possam ter, em qualquer dos casos, razões de queixa da arbitragem, mas quando está tudo por arames, é nos detalhes que as coisas se decidem: uns têm Gaitan outros têm Alan; uns têm um Lima incrivelmente goleador e outros têm o único e verdadeiro incrível Hulk. Em suma, aquela equipa merece todos os elogios e Leonardo Jardim já provou merecer a nossa “cadeira de sonho”.

It’s not over till it’s over

São 4 pontos de vantagem mas espera-nos um caminho estreito até ao título que se adivinha. Ganhar em casa ao Beira-Mar é uma obrigação; vencer fora o Marítimo é um desafio complicado; derrotar o Sporting no Dragão poderá permitir comemorações precoces e, se necessário, faremos a festa em Vila do Conde. Todavia, depois de um empate em casa com uma Académica em profunda crise de confiança e resultados, de mais um falhanço em Paços de Ferreira e das muitas outras atribulações do consulado de Vítor Pereira, não prevejo facilidades. Aliás, prevejo que a ladainha benfiquista coloque os árbitros sob pressão, os dos nossos jogos e os dos deles, resultando naquilo que já sabemos.

Um país inteiro a chorar

Estou a ver o Aimar na televisão. Ele suspira, olha o vazio e, resignado, atira um “é sempre o mesmo… já não vale a pena”. O Benfica é, neste momento da História Universal, a maior vítima à face da Terra. E daqui a uns anos, as criancinhas aprenderão na escola que Hitler mandou exterminar os judeus, que a Inquisição atirou muita gente para a fogueira, e que o Benfica foi perseguido por Pedro Proença, pelo eslovaco que arbitrou hoje, e por Platini. O francês é o cérebro de toda uma conspiração que pretende evitar que o Benfica volte a ser campeão europeu e os adeptos benfiquistas, sempre muito racionais, fartaram-se de chamar pelo seu nome, hoje, em Stamford Bridge.
Jorge Jesus volta a pôr em causa a honorabilidade do árbitro, Luis Filipe Vieira fala em escândalo e pede a intervenção da Federação, o Sílvio Cervan tem dificuldade em engolir e até o “jornalista” Carlos Daniel fala de arbitragem com adjetivos como “deplorável” e “incrível”. É todo um país a chorar. Até nós, portistas, choramos, pois estou certo que gostaríamos de ter assistido a uma goleada histórica, mas que este Chelsea fraquinho não foi capaz de construir.
O mais hilariante nisto tudo é que os lances capitais deste jogo, sobre os quais pesa toda a polémica, foram absolutamente bem ajuizados pelo árbitro. Eu creio mesmo que, no lance do penalti, o eslovaco poupou o vermelho direto a Javi Garcia, pois o jogador do Chelsea só tinha Artur pela frente. Na expulsão de Maxi Pereira, o amarelo é o mínimo para quem carimba a canela do adversário com os pitons daquela forma. Aliás, este lance fez-me lembrar o de Bruno César no jogo com o Paços de Ferreira a que o árbitro fez vista grossa (também ali seria, no mínimo, o segundo amarelo).
E aqui é que eu queria chegar: o Benfica encontrou hoje uma arbitragem que marcou o que tinha de ser marcado, que expulsou quem tinha de ser expulso. Uma arbitragem que fez o que tinha a fazer em concordância com as leis do jogo. Uma arbitragem a que Jorge Jesus não está habituado e que Javi Garcia ou Maxi Pereira estranham, pois em Portugal podem fazer o que lhes apetece sem castigo. Imagine-se que, hoje, até Jorge Jesus foi mandado para a sua área delimitada, ele que costuma passear por toda a linha lateral como se estivesse em casa.
No meio desta histeria toda, ninguém fala do fantástico golo do Raul Meireles, que correu meio campo e fuzilou a baliza de Artur de forma brilhante. Grande Raul, quase te perdoei hoje a última época, sofrível, com a camisola azul e branca.