Fazer as coisas por outro lado

Confesso que, passados onze anos, nunca pensei vir a ficar esclarecido sobre o real significado da frase que Vieira proferiu quando foi apanhado a escolher árbitros numa escuta. Dizia ele que “não me tenho chateado com isto, porque eu estou a fazer isto por outro lado”. O outro lado era, pelo que agora se sabe, o lado do correio eletrónico, uma via aberta, ali para os lados do Alto dos Moinhos para ordenar padres, marcar eucaristias e renovar profissões de fé na águia vitória.

Não vi a “reação” de hoje dos coisinhos, mas o que fui lendo aqui ou ali permitiu-me concluir que o Benfica precisava mesmo de uma oportunidade para justificar o salário deste novo diretor de comunicação, que ninguém conhecia, nem achava que existia. Este Luís Bernardo prestou-se a uma situação tão deprimente, tão cheia de hesitações, certezas logo contrariadas com dúvidas (sobre Francisco J. Marques), e tomadas de decisão tão estapafúrdias (pedir a reabertura do Apito Dourado) que apenas a podemos comparar, pelo ridículo, ao célebre pedido de desculpas do João Pinto de pois dos 7-1 em Vigo. Não foi a carne toda no assador, mas foi carne para canhão.

Se a estratégia lampiónica tenta passar pela descredibilização do diretor de comunicação do FC Porto, quero ver o que vão fazer com o conteúdo de um e-mail que, hoje, o jornal Expresso – creio ser um órgão de comunicação social supostamente sério – avança, segundo o qual o Primeiro-Ministro, perdão, Luís Filipe Vieira combina com Paulo Gonçalves a descida da nota de um árbitro.

 

Critérios de análise

Repare-se na forma como a coisa é colocada na generalidade da comunicação social: “com este empate, o Benfica segura a liderança”. Ainda não ouvimos ninguém dizer qualquer coisa como “com este empate, o FC Porto pode reduzir para 1 ponto a diferença”. Critérios de análise.

Outra coisa: perguntaram a Rui Vitória, numa daquelas perguntas cuja resposta já se conhece, mas cujo propósito serve apenas elogiar ou adular a pessoa a quem se pergunta, o que achava do facto de não ter perdido nenhum dos quatro jogos com os outros dois grandes, registando uma vitória e três empates. Mas não houve quem lhe perguntasse por que razão o Benfica teve duas oportunidades de resolver o campeonato, precisamente com Porto (na Luz) e com Sporting (hoje), e em nenhuma delas conseguiu. Mais critérios de análise.

Não havia um Rui Pedro no banco

Tínhamos mais ou menos 60 minutos para marcar o máximo de golos possível e resolver o jogo, porque sabíamos que a última meia hora ia ser penosa. Uma jornada exigente como a de Turim haveria de trazer consequências a nível físico. E trouxe.

Pelo meio, a falta de sorte, outra vez. Bolas no poste, bolas tiradas em cima da linha. Um ou outro penalti por assinalar. E a rasteirice (não disse matreirice, porque foi mesmo de muito baixo nível o que se passou) de uma equipa que veio ao Dragão bem instruída no sentido de parar a dinâmica do FC Porto a qualquer custo. José Couceiro pode vir com o discurso polido que quiser, mas nunca conseguirá justificar por que razão, ao quarto de hora de jogo, Bruno Varela e os restantes companheiros procuravam constantemente quebrar o ritmo de jogo e parar com uma avalanche de ataque que se adivinhava desde cedo, mas que só se confirmou plenamente na parte final, nos desesperantes minutos finais em que o coração manda mais do que a cabeça. Uma vergonha num futebol luso que cada vez mais cheira a esgoto.

Não sei se vamos ganhar aos coisinhos. Acredito que temos equipa (não banco), neste momento, para isso. Mas este empate não podia ter acontecido.

Sem desnorte

Digamos que marcar dois golos (para ir a prolongamento) a uma equipa que apenas sofrera dois em todos os jogos da edição atual da Champions era tarefa praticamente impossível. No entanto, atendendo aos condicionalismos – uma eliminatória praticamente decidida no primeiro jogo e outra expulsão neste segundo -, deixámos uma muito boa imagem no estádio da Juventus. Longe vão os tempos da tremideira e desnorte de um passado recente, em que cada um jogava para seu lado e ninguém olhava o adversário nos olhos. Neste momento, temos um onze mais ou menos estabilizado, que se porta como uma equipa e não receia ninguém. E nesta derrota, podemos ir buscar muita coisa positiva para ganhar aos coisinhos.

Soares é fixe?

Não deixa de ser curiosa a situação de termos emprestado aquele que é agora um dos melhores marcadores do campeonato ao Vitória de Guimarães e irmos lá buscar, pelo que tudo indica, um outro avançado. Não que eu, pessoalmente, ache que o Marega é jogador para o Porto – que não é – mas fica a sensação de mais uma gestão do plantel feita aos tropeções.

O que vale Soares? Acho que tem qualidade para lutar com André Silva pela titularidade, acho que até pode encostar Diogo J no banco e assumir uma dupla com o André. Não é nenhum Luiz Adriano, mas tem mais qualidade que Depoitre.

Cagança máxima

O que aconteceu hoje na Luz é a prova de que não há verdades absolutas no futebol. Que o diga o jornal A Bola, que fez uma capa vergonhosa e humilhante para o Boavista, dando como adquirido que a equipa que ia da invicta não teria outra ambição senão estacionar “o autocarro” e limitar-se a ver os “bólides” de Carnide jogar. Talvez os coisinhos tenham interiorizado a mensagem do jornal de tal forma que se esqueceram, eles próprios, de defender. Conclusão: levaram 3 na primeira parte. Pelos vistos, segundo a malta lampiónica, todos eles irregulares. É bom que provem numa jornada do que nós andámos a provar desde o campeonato. Ser gamado e não conseguir ganhar um jogo? Yes, we know the feeling.

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E amanhã é para ganhar, até porque o Sporting empatou e seria importante cavar um fosso de 4 pontos para eles (a poucas semanas de virem ao Dragão…). E fundamental será aproximarmo-nos dos coisinhos e manter esta fé de que ainda é possível. Isto numa altura em que ainda esperamos sangue novo no plantel (porque Kelvin, apenas, não é solução).

 

Lesados do NES (e não só)

Sinto-me um lesado do NES. Todos nos sentimos lesados do NES. As esperanças que fomos acumulando ao longo da primeira metade de 2016 (quando já se preparava esta época, nas palavras do Presidente), depositámo-las neste novo projeto, neste começar de novo – mais um! -, nesta nova era de Somos Porto. Mas, com seis meses de Nuno Espírito Santo, estamos a ver desaparecer todo este capital de esperança acumulado em agosto e setembro.

Tivemos até aqui coisas boas, ainda que poucas: um apuramento para a fase de grupos da Champions League em condições muito especiais e um apuramento sofrível para os oitavos-de-final da Champions num grupo de pouca exigência competitiva. À parte isso, desilusões atrás de desilusões, com momentos bons aqui e ali. Uma eliminação da Taça de Portugal, uma eliminação da Taça da Liga (na última posição do grupo), e o segundo lugar na Liga, mais longe do primeiro do que do… quinto classificado. Pouco, muito pouco.

NES, claro está, partilha culpas com quem manda, com quem lhe deu este plantel tão desequilibrado, com quem cometeu erros crassos na gestão do clube. Mas as opções que toma jogo após jogo, a insipidez do nosso futebol em grande parte dos jogos contra equipas “pequenas” e o discurso “para fora” pouco ou nada motivador “para dentro”, tudo isto é sua responsabilidade.

Não podíamos falhar em Paços. Depois da vitória dos coisinhos, e para provar que não desarmávamos de ir atrás deste título e que o combate “contra tudo e contra todos” não se fazia apenas da boca para fora, tínhamos a obrigação de ganhar este jogo. Mas nós somos aquela equipa que praticamente não ganha fora. Em oito jogos, ganhámos três, com uma derrota em Alvalade e quatro empates a zero (Tondela, Setúbal, Belenenses e Paços). Pobre, muito pobre. Podemos começar a preparar a próxima época, Presidente?