A Europa vista do sofá

Fenerbahçe – 1
Benfica – 0

Pareceu-me que o catedrático da chicla levou a mal a pergunta do jornalista (mais uma, quando não lhe agrada), logo na flash-interview, sobre “o que correu mal” no jogo. Para Jesus, só se pode falar em “correr mal” no final da eliminatória. Para Jesus, este jogo não existiu, esta derrota só existe na cabecinha do jornalista. O treinador dos coisinhos foge com o rabo à seringa sobre este jogo, como se a sua equipa não tivesse jogado uma caracoleta, como se os turcos não tivessem enviado três bolas aos ferros (uma delas num penalti), como se a opção por um Aimar de início não tivesse sido completamente falhada. Eu acho que os coisinhos têm capacidade para ganhar aos turcos, uma equipa que me pareceu muito pouco criativa no meio-campo. Ainda por cima, no finalzinho do jogo, o avançado Webo decidiu fazer o impensável, chutar a bola para longe, valendo-lhe essa ação um amarelo que o tira do jogo da Luz.
Neste momento, Jorge Jesus fala na conferência de imprensa. No fim de cada frase, faz aquele movimento com a boca, típico de quem está a tirar bocadinhos de comida entre os dentes. E ouve-se, através do microfone, o chiar produzido pelos lábios em pressão sobre os dentes. Uma classe de pessoa, este treinador.

Alemanha – 8
Espanha – 1

No duelo germano-espanhol da Liga dos Campeões, não parece haver dúvidas: vamos ter uma final alemã. Tito Vilanova e o seu Barcelona já deviam ter aprendido que jogar “à FC Porto” não leva a lado nenhum. Aquela mania de nos imitarem com posse de bola em elevada percentagem, mas sem resultados práticos, para além de irritante, abre, contra equipas fisicamente poderosas e rápidas no contra-ataque, muitas fragilidades.
Mourinho ainda deve estar a tentar perceber porque é que a sua defesa deu tantas abébias num só jogo. Lewandovski passeou pela grande-área, instalou-se, fez o que quis. Se há equipa que pode, ainda, sonhar com uma remontada, essa equipa será o Real Madrid, mas acho que qualquer uma das equipas alemãs tem capacidade para marcar fora.

Cuspir para o ar… à Capela

Walter Casagrande foi um avançado brasileiro que passou pelo FCP na época 1986/87, sem grande história nem grande proveito. Esteve depois em Itália, em clubes de segundo plano, e acabou a sua carreira no Brasil sem nunca se ter tornado o jogador de referência que muitos acreditaram poder vir a a ser.

Entretanto, passou por graves problemas, com consumo de drogas e um acidente que o colocou em coma. Recuperou e voltou a comentar jogos do Brasileirão. 26 anos depois de por cá ter passado é notícia em Portugal porque, segundo palavras do próprio numa entrevista na TV brasileira, jogou dopado quando actuou em Portugal.

A história do desporto nos anos 80 é infelizmente indissociável do consumo generalizado de substancias dopantes. No futebol e, por exemplo, nos desportos olímpicos  Porém, naqueles tempos de débil controlo poucos poderão alegar inocência, do mesmo modo que é impossível comprovar o que se passou efetivamente com Casagrande. A esta distância, é a sua palavra contra a do médico do FCP à época, o Dr. Domingos Gomes.

Já li hoje disparates absolutos que iam desde a atribuição da generalidade das vitórias do FCP de então ao doping até à sugestão de que a UEFA deveria retirar o título de campeão europeu conquistado em 1987 (por analogia com o que se passou recentemente com Lance Armstrong). O mais curioso nesta história é o facto do dito Casagrande ter jogado apenas 6 jogos pelo FCP…

P.S. – Este fait-divers é muito útil para quem apelidou de “vitória limpinha” um jogo em que a equipa derrotada lhe viu negados 2 penaltis claríssimos nos 10 minutos iniciais de um jogo decisivo. É bom mudar de assunto quando o tema é a falta de mérito de um certo clube de Lisboa.

Tudo está bem quando acaba bem

O Atsu espatifou o carro, ontem, na VCI. Felizmente, nada de grave aconteceu e o nosso “prodígio” ganês já está pronto para outra. Em Moreira de Cónegos, no dia anterior, foi o defesa do Moreirense que ia destruindo o Atsu, na grande área, perante a complacência do árbitro. Também nada aconteceu. Felizmente não precisámos desse “penalti” para somar os três pontos. Ontem, na Luz, o Maxi Pereira continuou a sua saga de destruição massiva de adversários com o total perdão ecuménico do sr. Capela. A propósito, vale muito a pena ler o elogio do master kodro ao defesa uruguaio dos coisinhos. O árbitro, esse encarregou-se de espatifar todas as esperanças leoninas logos nos primeiros minutos, marcando a tónica que haveria de conduzir a mais uma vitória estrondosa do campeão anunciado.

O Atsu é que sabe

Segundo A Bola de hoje, Atsu atrasa a renovação. Com contrato até 2014, o ganês, segundo o pasquim, “quer dar novo rumo à sua carreira”. A ser verdade – e devemos sempre desconfiar quando se trata deste pedaço de papel -, acho piada que, jogadores que mal começaram a dar os primeiros passos no futebol ao mais alto nível e ainda sem estatuto de titulares (já não digo “indiscutíveis”), queiram zarpar. Não sei que horizontes terá Atsu em mente, se temos Real Madrid à espreita, ou Barcelona na jogada, ou um qualquer clube inglês de topo, mas deve ser qualquer coisa substancialmente melhor do que um clube como o FC Porto, reconhecido pelo trabalho fantástico que tem feito com os seus ativos nos últimos dez, quinze anos. E com muitos títulos à mistura. Mas o Atsu é que sabe.

Para que serve a equipa B?

Já muito se escreveu aqui sobre o valor do 11 deste ano e sobre a escassez de verdadeiras alternativas. E basta exemplificar com 3 posições para que se tenha uma noção mais exacta da veracidade desta situação:
– não existe alternativa para o Jackson (depois do infeliz Kleber tivemos um “ausente” Liedson);
– não existe uma alternativa para o Danilo (o Miguel Lopes foi-se e o Fucile só faz número nos treinos);
– não existe uma alternativa para o Fernando (o belga faz uma perninha, o Castro também, mas é notório que nenhum deles “nasceu” para fazer aquela posição).

Vem isto a propósito das notícias de hoje que dão como adquirido que 2 jogadores do Guimarães, Tiago Rodrigues (21 anos) e Ricardo (19 anos), irão integrar a equipa B do FCP em 2013/2014. Alegadamente, pela módica quantia de 1 milhão de euros cada. A facilidade com que se paga na ordem do milhão jogadores que só muito hipoteticamente poderão um dia jogar na equipa principal é algo que me assusta. Neste caso, até são portugueses, muito jovens e com alguns jogos a sério nas pernas, o que pode justificar o investimento. Mas quanto custou (em aquisições, comissões, etc.) e quanto custa (em salários) a equipa B? Tendo em conta os valores veiculados pela imprensa e o facto de uma parte significativa dos jogadores da B não ser oriunda dos sub-19 (Seba, Dellatorre, Guilherme Lopes, Seri, Stefanovic, Quinonez, Caballero, Diogo Mateus, Vitor Luís e Anderson Silva são apenas alguns exemplos), deve ter um orçamento ao nível da maioria das equipas da Primeira Liga.

Tudo estaria bem se, no mínimo, desta dispendiosa equipa B saísse um elemento que se impusesse indiscutivelmente no 11 do Porto ou, pelo menos, na rotação habitual. A verdade é que, exceptuando os que por lá passaram para ter “tempo de jogo” (Maicon, Kevin, Abdoulaye, Fabiano, Mangala e Iturbe),  dali não saiu nada em 2012/2013. Seba jogou 6 vezes como suplente utilizado (4 na Liga e uma em cada uma das taças)  mas não fez nada de substancial; Quinones fez 2 jogos, sem deslumbrar nem comprometer; creio que o resto da malta teve passagens ainda mais fugazes pela equipa principal  (o Tozé terá jogado uma dúzia de minutos) ou nem sequer teve a oportunidade de o fazer. Se a isto somarmos o facto de vários jogadores da B não poderem ser propriamente considerados “esperanças para o futuro” ou “potenciais craques”, como é o caso do Stefanovic (25 anos), do Zé António (36 anos) e do Pedro Moreira (24 anos), o panorama é desolador. Tão desolador quanto o facto do melhor marcador da B, o ponta-de-lança Dellatorre, nem sequer ter tido uma oportunidade na equipa e ter sido contratado um jogador de 35 anos como backup do Jackson Martinez.

 

Abdoulaye, a opção fatal

A mesma fortuna com que os deuses bafejaram Vítor Pereira, no jogo do campeonato, quando decidiu meter Kelvin em campo, foi-lhe hoje retirada, pelos mesmos deuses, quando teve a infeliz ideia de colocar Abdoulaye a titular, num jogo em que estava em causa um troféu. Podemos sempre descartar o fator mitológico da coisa e dizer simplesmente que, dada a tremideira do senegalês, já patenteada no jogo do Dragão, Vìtor Pereira devia ter o bom senso de entrar em campo com a dupla de centrais titulares, até porque, repito, estava em causa um troféu. Devo dizer que acho que o Abdoulaye tem tudo para dar jogador, daqueles a sério, mas este seu regresso, depois da série de jogos em que substituiu Mangala lesionado e em que até se saiu bem – este seu regresso, dizia – não está a correr bem.
Em relação ao jogo, não creio que haja muito a acrescentar ao que tem sido dito sobre as últimas exibições da equipa. Não se pode apontar nada aos jogadores em termos de entrega, raça e sacrifício. Deram o que tinham. E ninguém pode dar o que não tem: um treinador de topo e um plantel de topo.

Kelvin, o herói acidental

Demorei duas semanas a habituar-me a esta coisa, vá lá, muito habitual nos benfiquistas que é a ideia de que este título “já era”. Honra lhes seja feita, estamos, para não fugir à expressão, mal habituados. Dei por mim a acreditar que Olhanense seria capaz de os empatar, mesmo sabendo isso era altamente improváel. Enfim, tenho tanta necessidade de acreditar porque, na realidade, ainda não me “habituei”.

Mas para combater estas ilusões nem é preciso aguardar pelo resultado do SLB – basta ver como os nossos jogam. O Porto-Braga desta noite terminou bem, mas foi a imagem fiel do que tem acontecido esta época. Jogamos sempre da mesma forma, estejamos a perder, empatados ou a ganhar, quer o adversário seja o Sporting semi-B, o Benfas do homem da chicla, o Olhanense dos salários em atraso ou o Gil Vicente. É esta falta de rasgo, de golpe de asa, de alternativas tácticas credíveis e, diria eu, de um milagreiro tipo Hulk, que faz deste Porto a equipa previsível e insegura que está em vias de perder o campeonato.

VP disse no final do jogo de hoje, com indisfarçável orgulho e manifesta falta de tino, que “o Porto foi igual a si mesmo” (é verdade mas não é forçosamente positivo…), que “a equipa circulou a bola” (igualmente real, tendo em conta os 70% de posse) e que “tiveram paciência” (é aqui que visão do VP choca com a realidade – a equipa faz sempre o mesmo porque está rotinada para isso  e porque, apesar de existirem soluções para outras tácticas, ele não sabe mais). Hoje fomos salvos de um empate definitivamente comprometedor por 2 golos felizes de um jogador da equipa B, alguém que muito raramente joga na equipa pricipal e que nem na Segunda Liga tem mostrado nada de especial. Sim, tivemos a sorte que nos faltou contra outros adversários, mas se atendermos mais às oportunidades de golo e aos pontapés de canto, em lugar da inconsequente posse de bola, talvez se entenda porque somos presentemente segundos classificados.