Eminência parva

A capa de A Bola de hoje é cómica. Rui Vitória dá um murro na mesa – treme, Portugal! – porque não admite “que ponham em causa o mérito” dos coisinhos. É preciso explicar ao senhor que o que está aqui em discussão é a sonegação de mais uma dezena de penaltis ao Porto, não ao seu clube. Que o que está aqui em causa é o prejuízo direto do Porto em campo, com arbitragens orientadas para não nos deixarem ganhar, e não outra coisa. Portanto, não se está aqui a tirar mérito a quem quer que seja (ainda que os que vão à frente não joguem o suficiente para justificar quatro pontos de avanço). É também preciso explicar que o clube do qual Rui Vitória é funcionário passou décadas a negar o mérito às vitórias do Porto e a tentar prejudicar-nos junto das instâncias desportivas. Tentou de tudo, incluindo retirar-nos das competições. Nunca conseguiu, foi sempre derrotado, e agora faz as coisas por outro lado e, pelos vistos, com muito bons resultados. Rui Vitória devia pensar nisso antes de abrir a boca.

Ultraje a rigor

O jogo de hoje em Moreira de Cónegos parece uma síntese perfeita da nossa época 2016/2017: um onze desequilibrado, na sequência de um plantel desequilibrado, com insuficiências gritantes (na posição de ponta de lança, por exemplo); uma incapacidade atroz em fazer golos – apesar das oportunidades criadas; um treinador com dificuldade em tomar as melhores opções, quer antes do jogo, quer durante o mesmo; e um árbitro que nos aplica a machadada final, destruindo-nos quando já estamos no chão.

Até ao intervalo tínhamos feito o suficiente para o apuramento ser perfeitamente possível. A exibição não era regular, mas Brahimi e Óliver construíam jogo ofensivo em dose suficiente para metermos pelo menos duas ou três bolas na baliza do Moreirense. Não o fizemos porque quem joga com Herrera, André André ou Depoitre tem um onze desequilibrado e arrisca-se a não ganhar. É a diferença entre ser ou não letal. E nós não somos mortíferos na hora da verdade. Veja-se, por exemplo, as inúmeras perdas de bola ou os passes errados do mexicano, escostado por Nuno Espírito Santo (NES) à direita. Ou a incapacidade que o belga demonstra em jogar fora da área (tem de vir à procura da bola, porque a equipa não está formatada para o servir dentro do retângulo onde se decidem os jogos). Ou a insipidez do jogo de André André, fisicamente um caso muito estranho de um jogador que procura sempre o contacto com o adversário para ganhar a falta porque sabe que não consegue competir em termos físicos. Depois, vemos um Corona ou um João Carlos Teixeira no banco e preferimos não fazer perguntas porque o treinador que desenha saberá melhor do que nós o que pretende.

No final dos primeiros 45 minutos qualquer portista pensaria que, a continuarmos naquela toada, ainda que irregular, feita de momentos, o golo acabaria por aparecer. Até tínhamos no resultado de Belém um incentivo extra que NES certamente não deixaria de capitalizar na mente dos jogadores. Pois bem, o que aconteceu na segunda parte? O inexplicável, ainda que não inédito nesta época. Uma entrada adormecida, passiva, apática da equipa, deixando o adversário acreditar e crescer no campo… Deixando o Moreirense acreditar que o golo era possível. E foi. NES deveria explicar este súbito adormecimento da equipa. E não se pode escudar apenas no anti-jogo do Moreirense (já vamos ao árbitro), porque o golo surgiu aos 48 minutos e até à expulsão inacreditável de Danilo houve 30 minutos para mudar o rumo das coisas. Houve quase toda uma segunda parte para ir para cima do adversário, para o encostar lá atrás, para o sufocar. Em vez disso, esperámos por qualquer coisa que não aconteceu. E o que aconteceu, acabou por se chamar Luis Godinho.

O que este árbitro fez hoje foi inqualificável. Depois de cumprir o sonho de ter arbitrado o “seu” Benfica (é ver uma mensagem de uma amiga que circula pelo facebook), hoje deve ter cumprido o sonho de encostar o traseiro às partes do Danilo e expulsá-lo de seguida (não fosse haver dúvidas da sua masculinidade). Para além disso, foram “apenas” um penalti claríssimo sobre André André (agarrado pelo braço) e um atraso para o guarda-redes não sancionado (vê-se claramente o defesa olhar para trás e a saber perfeitamente a quem vai passar  a bola). E foram fantásticos aqueles 8 minutos de compensação, numa altura em que estávamos já com 9 jogadores e era cada um por si…

Aquilo a que assistimos hoje foi um ultraje ao futebol, um assalto com todo o rigor e muito bem delineado à nossa equipa. Fez-me lembrar precisamente uma banda brasileira dos anos 80, os Ultraje a Rigor, que tinham uma canção cujo título assenta que nem uma luva a este senhor que hoje apitou o nosso jogo. Deliciem-se.

 

Bater no fundo

Na capital do império, local onde outrora até os sistemas de rega se ligavam espontaneamente para comemorar as nossas vitórias, já nem sequer somos o “ódio de estimação” dos benfiquistas.

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Aqueles gajos do Porto estão onde? Já nem os consigo ver…

Tem sido difícil a vida de blogger portista. E não é pela escassez de vitórias, é mais pela escassez de ideias… ideias para não estar sempre a “bater no ceguinho” e a lamentar aquilo que muita gente já viu, que muitos não querem acreditar mas que é evidente: o clube precisa de uma nova estirpe de líderes, de um rumo diferente, de abordagens realistas, de gente honesta. E de um treinador que não se limite a “falar bem”…

Pouco antes destes 4 empates sem golos, estive em Lisboa. E no átrio do edifício onde está o Starbucks, junto ao Rossio, estava uma banca de merchandising do SLB. Um dos meus amigos decidu então  aproveitar a oportunidade para comprar uma camisola do Benfica para o filho, que por motivos inexplicáveis aprecia aquela agremiação. E eu decidi que ia brincar um pouco com a situação, mantendo uma distância prudente para a dita banca e perguntando com ar preocupado se aquilo era contagioso.

A resposta da jovem vendedora do SLB foi muito simpática – disse que não, que eu me poderia aproximar sem correr riscos. O meu amigo perguntou então se a camisola Y do tamanho X estaria bem para o filho de Z anos. Ao que eu reagi, fingindo interesse nos produtos, pegando num cachecol vermelhusco e perguntando: “Isto queima bem? É que estava a pensar comprar também o isqueiro e vocês poderiam comercializar isto num pack para portistas…”

A mocinha sorriu, deu-me uns enganadores segundos para usufruir da piadola e atirou-me metaforicamente ao tapete dizendo: “Portista? Ainda bem, se fosse do Sporting é que era pior.”

Perceberam? Na capital do império, local onde outrora até os sistemas de rega se ligavam espontaneamente para comemorar as nossas vitórias, já nem sequer somos o “ódio de estimação” dos benfiquistas. Fomos substituídos nesse papel pelo Sbordem, o clube dos Viscondes que já não ganha nada de significativo desde  o início do século XXI. Isto diz muito sobre as expectativas dos nossos adversários e sobre a potencial ameaça que (não) constituimos.

Pequeninos a jogar, pequeninos a celebrar

Leis do Jogo – LEI 12

3. Medidas disciplinares

Um jogador deve ser advertido se:

• faz gestos provocatórios, de troça, ou inflamatórios

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Aquele palhacito com as mãos nas orelhas, que alguns segundos antes se preparava para sair do Dragão com o rabinho entre as pernas, vergado a uma exibição categórica do FC Porto, levou cartão amarelo por causa desta provocação aos adeptos portistas?

Chicos-espertos e afilhados

O clube emitiu hoje um comunicado sobre a transmissibilidade dos cartões de lugar anual. E fê-lo com toda a razão uma vez que há sócios maiores (sem lugar anual) a entrar gratuitamente com cartões de sócios menores (com lugar anual, mais barato). Eu nem sabia que se podia ceder o lugar a sócios da mesma faixa etária e da mesma categoria. Diz o clube que no próximo jogo, com os coisinhos, irá apreender os cartões que forem apanhados nesta chico-espertice e que se trata, “acima de tudo, de uma medida de justiça e equidade para a imensa maioria de associados.” Acho muito bem que quem anda a roubar o clube em proveito próprio seja posto na ordem. E gostei muito desta última expressão: uma medida de justiça e equidade para a imensa maioria de associados. Só tenho pena que estes conceitos, sempre louváveis, nem sempre estejam presentes quando se trata de zelar pelos verdadeiros interesses dos sócios como eu, que já tenho mais de 35 anos disto.

Por exemplo: no dia 22 de outubro, preparava-me para uma tarde desportiva à antiga com o meu filho pequenito. Começávamos com o hóquei, contra o Turquel, continuávamos com o andebol, contra o Sporting, para, finalmente, acabarmos no futebol, contra o Arouca. Deixei o carro no centro comercial junto ao estádio e, no percurso de cerca de cem metros que separa o shopping das bilheteiras do pavilhão, fomos abordados por cinco ou seis pessoas a quererem vender-nos bilhetes para o hóquei. Respondi sempre que pretendia comprar os papelinhos na bilheteira, que é onde se compram os bilhetes, como expliquei ao meu filho, que, na sua inocente ignorância, não compreendia por que razão eu rejeitava a oportunidade de despachar a coisa com aquelas pessoas. O incómodo de ter de repetir o mesmo a várias pessoas enquanto caminhava transformou-se em espanto quando, na própria bilheteira, encostados ao balcão, estavam mais dois vendedores. Ali, às claras, sem problemas. Que os bilhetes eram ao mesmo preço, que eram a mesma coisa, etc… etc…

Eu gostava que o clube me dissesse quem eram aquelas pessoas que, livremente, se moviam junto à bilheteira a fazer negócio. Gostava de saber quem são, se têm alguma ligação ao clube – do tipo laboral – e porque o fazem com tanto à-vontade. Até porque quando disse à menina da bilheteira que também queria dois bilhetes para o andebol, ela disse que estavam esgotados. No final do hóquei, à saída do pavilhão, verifiquei que lá andavam “os do costume” a vender bilhetes para… o andebol. Eu queria saber quem devo responsabilizar por impedir que eu e o meu filho pudéssemos apoiar o clube contra o Sporting e, ao mesmo tempo, permitir que se vendessem bilhetes, no passeio da rua, sem qualquer intervenção do clube ou da polícia.

Devo responsabilizar os mesmos que, há dois ou três anos, me quiseram chutar da bancada super bock (equivalente à antiga superior sul, onde me fiz adepto e sócio há 37 anos) para a bancada coca cola (superior norte), através de uma carta que já designava o meu novo lugar, o setor onde ia ficar e a porta por onde devia entrar? Devo responsabilizar esses mesmos que me quiseram mandar para o “outro lado”, a coberto de uma remodelação que ia no sentido da criação de uma denominada “bancada da juventude”? Só não dei uma boa gargalhada com esta da “bancada da juventude” porque a raiva de ser arrumado para outro sítio foi maior. É claro que não aceitei essa mudança e até agora não vi a minha zona ser invadida por essa tal juventude, por certo, muito mais portista do que eu. Mas conheço quem tenha, tal como eu, permanecido na sua cadeira de sonho, e tenha tido o azar de quase ser engolido vivo por um conjunto de jovens adeptos que insistiam, vá-se lá saber porquê, em ver o jogo de pé, em cima das cadeiras, e insultar e ameaçar quem ousasse dizer alguma coisa. Essa pessoa teve mesmo que mudar de bancada porque queria ver o seu clube jogar à bola com o seu filho em clima sereno e com o mínimo de civilidade possível.

Já agora, quando fui comprar o bilhete do FCP-Arouca para o meu filho, pedi o mais próximo possível do meu lugar anual (o tal que me queriam tirar). Quando a funcionária me disse que só tinha para o setor ao lado, perguntei se os lugares junto aos meus são lugares anuais, ou seja, se estão bloqueados por causa disso. Qual não foi o meu espanto quando a menina me diz que “já não vendemos bilhetes para o seu setor”. “Então quem vende?”, perguntei eu. Ela sorriu e eu compreendi. Se eu quiser um lugar anual para o meu filho, terei de mudar de bancada.

Para concluir, e pegando na tal bonita expressão que vem no comunicado do clube, eu gostava que a justiça e a equidade fossem mesmo um privilégio de uma imensa maioria de associados, principalmente daqueles que, já não sendo jovens, como eu, continuam a sofrer pelo clube e apoiá-lo com o mesmo espírito de sempre.