11 pontos para cicatrizar

Depois de a poeira assentar, chegar-se-á facilmente à conclusão de que Javi Garcia agrediu mesmo o Alan, com o braço esquerdo, ao mesmo tempo que afastava a bola. As imagens apanham os jogadores de costas, mas é possível ver-se a agressão. Se aquilo é razão para a agonia do Alan, no relvado, isso já são contas de outro rosário. Agora, que há agressão, há. Por isso, a expulsão é justa. O que o segundo classificado (a 11 pontos) quer, com a ajuda do seu órgão oficioso, já todos sabemos: fazer de Xistra o bode expiatório da perda de um campeonato. Uma espécie de Olegário, versão 2. Esta primeira página de A Bola marca um momento na história do jornalismo desportivo português pelo facciosismo e parcialidade gritantes. A maior parte dos portistas lidam bem com a situação, e divertem-se, com um sorriso de orelha a orelha. Agora não se admirem se aparecer por aí um maluco qualquer a causar uma tragédia. Este tipo de jornalismo nojento põe-se a jeito.

Notícia do dia

Vinte adeptos aplaudem o segundo classificado, na chegada ao aeroporto, depois da vitória contra o candidato a descer à segunda divisão alemã. Isto é notícia. Ah, “A chegada a Lisboa sucedeu depois de um voo tranquilo, de cerca de duas horas e meia.” Obrigado, JN.

Para acabar a semana a sorrir

Funes Mori deixou de ocupar as manchetes de A Bola a partir do momento em que o segundo classificado “desistiu” de o contratar e foi aventada a hipótese de o FC Porto estar interessado nele. Normal. Agora, a estrela chama-se Fernández.
Ao mesmo tempo, destaca-se o facto de Rodrigo – lembram-se? aquele craque do Real Madrid que foi contratado por uma pipa de massa para ser… emprestado ao Bolton – estar a brilhar em Inglaterra. Eu que não percebo nada de bola, decidi ir ver com os meus próprios olhos o que de relevante este moço tem feito na Premier League e qual não é o meu espanto quando vejo que, após 22 jornadas, o nome de Rodrigo aparece em 9 jogos , 3 deles apenas como titular. E de onde vem todo este brilho? É que o jovem marcou, finalmente, o seu primeiro golo em Inglaterra, anteontem, no empate caseiro contra o Wigan. O jornal A Bola correu logo a escarrapachar na primeira página “Rodrigo brilha em Inglaterra“. Mais: “Avançado contratado pelos encarnados ao Real Madrid por 6 milhões confirma valor“. Isto não dá vontade de rir?

Álvaro Pereira

É um dos jogadores indiscutíveis do FC Porto actual. Velocidade, eficácia a defender, qualidade no cruzamento. Álvaro Pereira preenche a ala esquerda de forma completa e a equipa é muito diferente sem a sua presença. Para pior. A questão que se coloca é a seguinte: é este já o melhor defesa-esquerdo do FC Porto pós-Branco? Admito que sim, mas ainda lhe falta ganhar títulos, coisa a que Nuno Valente ficou ligado para sempre na história do nosso clube. Recordo ainda um brasileiro dos anos 90 chamado Esquerdinha, que foi, na minha opinião, muito subvalorizado enquanto foi jogador do nosso clube. Fica o convite para participarem na botação na barra lateral.
Voltando a Álvaro Pereira, não sei se os caríssimos leitores estão lembrados, mas o uruguaio, antes de vir para o Dragão, foi dado como certo no 2º classificado pelo jornal A Bola. Chegaram mesmo a deslocar-se à Roménia para entrevistar o “novo defesa-esquerdo do Benfica”. Passámos de um Álvaro Pereira sorridente enquanto “jogador do Benfica” para um Álvaro Pereira sério, com ar apreensivo e com as mãos em posição de pedir perdão, talvez pela traição que acabara de fazer e que o jornal O Jogo, na altura, cronometrou em 4 minutos (o tempo que ele levou para decidir e assinar pelo FC Porto). Ora cliquem lá na imagem.

Hulk não chegou à perfeição

O jornal A Bola apenas atribuiu a nota 10 a um jogador até hoje. Foi a João Pinto, nos 6-3 de Alvalade. Nunca mais um jogador teve direito à nota máxima. Após o FC Porto-terceiro classificado de domingo, lembrei-me que Hulk poderia ser, finalmente, o segundo jogador na história do jornal a ser pontuado com nota 10. Com dois golos marcados, uma assistência e uma exibição na globalidade elogiada pelo adversário (como factor maior para a goleada), Hulk mereceria, na minha opinião, essa nota. Até pelo facto de ter conseguido tudo isto num jogo contra o principal rival (factor, na altura, invocado para a justificação do 10 de JVP). Mas não, o jornal oficioso do terceiro classificado pontuou Hulk com 9. Não é que seja de grande importância este facto. Mas fica registado.

Dois anos e meio depois

Eu sabia que devia guardar aquela edição de A Bola de 16 de Maio de 2008. Algo me dizia que um dia teria oportunidade de a lembrar com um sorriso na face. Que um dia assistiria à mais bela e dolorosa vingança sobre todos aqueles que quiseram destruir o meu clube. Ela aí está, em campo. Cinco, zero.
Há dois anos e meio, este jornal titulava “Benfica quer FC Porto a pagar em todas as frentes“, introduzido por um fatal “Alastram eventuais consequências da condenação por tentativa de corrupção“. Desde a UEFA à CMVM, passando pelo Governo, o terceiro classificado iria até ao fim do mundo para nos varrer do mapa futebolístico. O resto da história toda a gente conhece. Criaram-se task-forces de advogados competentíssimos, movimentaram-se canais jornalísticos privilegiados, construíram-se fábulas tenebrosas que impressionaram os Platinis do futebol. No final, zero. O FC Porto não só não foi banido da Champions, como ganhou mesmo o seu grupo à frente do Arsenal, sendo apenas eliminado nos quartos-de-final, às mãos de um Cristiano Ronaldo inspirado. Isto para não falar, a nível interno, no quarto campeonato consecutivo. O clube do regime de outrora meteu a viola no saco e regressou a casa envergonhado.
Eu não estava satisfeito. Ansiava por uma vingança maior, um momento sublime, uma acção dolorosa, lenta e metódica, que lhes pudesse fazer em campo aquilo que eles não nos conseguiram fazer na secretaria. E esse dia chegou, anteontem, domingo, 7 de Novembro de 2010, trazendo a goleada com que sempre sonhei e cujo desejo aquela capa de A Bola de 2008 tinha acelerado. Obrigado, Pinto da Costa, André Villas Boas e os catorze magníficos que pisaram o relvado do Dragão.

Mais do que prometia a força humana

Foi ontem que percebi que vamos ser campeões. Escrevam isto. Independentemente do que acontecer no FC Porto-Segundo classificado, este ano o campeonato é nosso. Porque só uma grande equipa faz aquilo que nós fizemos ontem em Coimbra. Como dizia Camões – que era portista – “mais do que prometia a força humana”, os nossos guerreiros souberam trazer os três pontos daquele caldo verde em que se transformou o relvado. Na TVI, o desespero da dupla Valdemar-Manha tomou conta da transmissão após o grande golo do Varela. Até então, qualquer aproximação da Académica à nossa área era prova de que tinham tomado conta do jogo (somo se, naquele relvado, qualquer equipa pudesse ter a veleidade de “tomar conta do jogo”). No final, claro o lugar-comum da “estrelinha”, da “lotaria que sorriu aos dragões”, da “sorte que protege os campeões”. Enfim, mais do mesmo nesta pasmaceira que é a nossa comunicação social.

Ainda não perdemos, mas já não somos invencíveis

Já procurei em todos os dicionários existentes cá em casa. Pesquisei os dicionários online. O resultado é sempre o mesmo: INVENCÍVEL = que não pode ser vencido, que nunca foi vencido. O jornal A Bola publica a sua manchete festiva devido ao facto de o Guimarães ter empatado com o FC Porto e, antes daquele título absolutamente parvo, de dar “mais vida à Liga”, colocaram uma introdução, também ela parva, mas com a mais-valia de ser mentirosa. Dizem eles que “FC Porto afinal não é invencível…”. Quer dizer, nós ainda não perdemos um jogo, mas pelo que ontem ficou demonstrado, não somos invencíveis. Apesar de… termos empatado. Faz sentido? Claro que faz, na cabeça de um Delgado, de um Serpa ou de outro qualquer jornaleiro ao serviço do segundo classificado.
Acho que no jogo de ontem tivemos um árbitro hostil na sua postura face aos nossos jogadores (alguém reparou no clima de abraços, cumprimentos e palmadinhas nas costas entre Duarte Gomes e os jogadores do 2º classificado, no jogo contra o Braga?) e aos lances que eles protagonizaram. Xistra conseguiu enervá-los, mas isso não desculpa a jogo menos conseguido que tivemos. Acho que, pela primeira vez, esta época, vi os nossos jogadores descansarem à sombra da bananeira após o golo e apenas acordarem depois do empate e da expulsão (justa) de Fucile. Digamos que foi uma espécie de Jesualdice aquilo a que assistimos ontem. Um empate em Guimarães não é alarmante. Uma vantagem de sete pontos sobre os segundos é bastante boa. Siga a marinha, como diz o outro.

O Lobo deixou cair a pele de cordeiro?

Ontem tropecei por acaso no Jogo Jogado, da TSF, que conta com os comentários de Luís Freitas Lobo e João Rosado, moderados por Mário Fernando.
De João Rosado ficou a pérola de que o FC Porto, não tendo de jogar a Liga dos Campeões, é uma “equipa mais descansada”. Recorreu à comparação com o facto de o Braga, no ano passado, ter sido eliminado das competições europeias e, por isso, ter feito um grande campeonato. Tudo a ver com o FC Porto, com certeza! Diz ele que este ano “há apenas a Liga Europa” e não há a necessidade de dividir argumentos entre o campeonato e a Liga dos Campeões, por isso o FC Porto é a tal equipa mais descansada. Sim, só dá para rir, sr. João Rosado.
Mas mais graves e sérias, isto porque vindas de um suposto amante da táctica e do futebol jogado nas quatros linhas, foram as declarações de Luís Freitas Lobo. Deixo-vos a transcrição de grande parte delas e cada um que tire as suas conclusões. Eu tiro as minhas.
“Neste momento, sim, a equipa teve um bom início do ponto de vista pontual, não tanto do ponto de vista exibicional. O próprio André Villas Boas já referiu o primeiro jogo com a Naval como o jogo menos conseguido do Porto… O Porto ganha perto do fim, num lance muito infantil de um defesa da Naval… para não lhe chamar outra coisa… que dá um penalti.
Agora, a verdade é que a equipa teve um calendário mais sereno, tirando o jogo com o Braga – de facto, foi um grande jogo – mas teve um campeonato que lhe permitiu ter este embalo, que lhe pode permitir agora seis jornadas a ganhar consecutivas. Na época passada, o Braga também o conseguiu, e nem por isso foi campeão.
Agora, são coisas diferentes, como é evidente. Percebe-se que este Porto tem outro estatuto, outra força, tem outras bases. Foi construído em cima de outro barro, dentro e fora do relvado. Penso que esta época toda a estrutura do Porto esteve mais atenta a todos os poderes que envolvem o futebol português, e de facto a equipa está de outra forma, a estrutura está de outra forma, os jogos correm de outra forma. A equipa dentro do campo tem um comportamento táctico muito seguro.”
As minhas observações a estas declarações:
1. A azia do senhor perante a vitória na Naval. A forma como qualifica o penalti provocado pelo jogador da Naval. E a intencional omissão das boas exibições posteriores que têm vindo em crescendo.
2. A justificação da nossa série de vitórias por um “calendário mais sereno”, mas o aviso de que o Braga fez o mesmo e não foi campeão. Expressão de algum desejo para esta época?
3. A insinuação de que, nesta época, o nosso sucesso está alicerçado em situações menos claras com a afirmação “esta época toda a estrutura do Porto esteve mais atenta a todos os poderes que envolvem o futebol português” é inadmissível e deveria originar uma acção decidida do nosso departamento jurídico. Ainda dou de barato aquele “dentro e fora do relvado” (pode estar a referir-se ao trabalho realizado nas contratações), mas esta frase deve ser alvo de repúdio em todo os nossos canais oficiais e não só.
Para ouvir o programa (e a parte que interessa, a partir do minuto 23), clicar aqui. É curioso verificar a diferença entre o tom de voz com que fala do FC Porto – podia estar num velório – e que utiliza para falar dos outros assuntos.

O escroto do Valdemar

Esta vitória na Madeira deixou o segundo classificado a quatro pontos de distância, o que, não sendo muito, já é alguma coisita. Para além disso, esta vitória deixou o Valdemar Duarte com um formigueiro esquisito no escroto, tal o incómodo que revelou perante, segundo ele, a falta de ambição do Nacional. Tudo lhe fez espécie: a apatia do banco do Nacional, a apatia dos jogadores em campo, a falta de remates à baliza por parte do Nacional. E nem faltou a mais que previsível comparação deste Nacional com o Nacional do jogo com o nono classificado. Até o facto de o treinador do Nacional dialogar muito com os elementos sentados no banco o incomodou. Sugiro ao Valdemar que corte a unha do dedo mindinho. E que, já agora, perceba que o Nacional não jogou com uma equipa qualquer.