Pontapé na gaiola dourada

IMG_5162Para quem, como eu, foi tão crítico em relação à forma de actuar da nossa equipa ao longo dos 6 jogos que precederam a final, seria fácil dizer que estava errado, agora que todas as falhas, todos os erros, todas as hesitações foram esquecidas por esta conquista. Mas não é verdade: a equipa de Portugal foi demasiado conservadora nos embates com equipas notoriamente mais fracas (Islândia, Áustria, Hungria e Gales) e surpreendentemente expectante nos confrontos com equipas de valor mais próximo (Croácia e Polónia).

Daí que, ironicamente, fizesse (finalmente) sentido jogar contra a França como sempre jogamos neste torneio. Frente a uma equipa muito moralizada, com jogadores confiantes e contando com o melhor marcador da competição, teríamos que assumir menores riscos, usar mais o contragolpe e atacar pela certa. Claro que o incrível sucesso obtido legitima todas escolhas de Fernando Santos, por mais discutíveis que possam ter sido. E isso é o que fica. É isso que ficará na memória de quem viveu isto.

O jogo foi, como dificilmente poderia deixar de ser, um prolongado sofrimento. Sem fazer maravilhas, os franceses criaram oportunidades em quantidade suficiente para vencer nos 90 minutos e a maior de todas, um remate ao poste no prolongamento, teria por certo decidido a final. Um pouco antes, Griezmann tinha falhado o desvio de cabeça na pequena área portuguesa.

Por contraste, o nosso ataque foi literalmente inofensivo durante 90 minutos, tal como Rui Patrício se revelou intransponível sempre que necessário – para parar a cabeçada de Griezmann na primeira parte, o remate violento de Sissoko na segunda e grande oportunidade de Giroud antes de ser substituído. De um total de 9 remates em 120 minutos (metade do que fizeram os franceses), apenas um dos dirigidos à baliza de Lloris teve lugar nos 90 minutos iniciais (remate acrobático do Quaresma na sequência de um cruzamento demasiado largo do Nani que ia saindo bem). Os outros dois ocorreram no prolongamento: a cabeçada do Éder e o remate vitorioso deste mal-amado. O livre do Raphael que foi foi á barra, sendo porventura a melhor oportunidade portuguesa antes do golo, entra noutra categoria estatística.

Mas os números permitem também corroborar a sensação que ficou no final: Portugal venceu com justiça porque tendo tido a sorte de resistir no “período regulamentar”, foi quase sempre superior no prolongamento. Algo que se explica com a notória quebra física dos bleus mas também com a mudança radical que a entrada do nosso número 9 em jogo ditou. Antes e depois do golo, Éder ganhou disputas de cabeça que antes tinham sido sistematicamente dominadas pelos centrais franceses, segurou a bola no ataque e sofreu faltas que permitiram ganhar metros no ataque e momentos para a equipa respirar melhor. No tempo extra e apesar de terem estado 12 minutos em desvantagem, os franceses apenas conseguiram fazer um remate digno de figurar nas estatísticas da UEFA  – um pontapé de Martial que nem sequer chegou à baliza portuguesa.

No que diz respeito à “moral” do resultado: a seleção de futebol ofereceu aos 11 milhões de portugueses um motivo para comemorar, mas este resultado foi muito mais do que isso para emigrantes e luso descendentes que vivem em França. Foi a resposta a muitos anos de humilhações, algumas resultantes do mais puro racismo e arrogância cultural, algumas auto-inflingidas pela ignorância, pela falta de poder para dizer não, pelo hábito de fazer o que os outros não querem e serem discretos ao ponto de nem serem notados. É esse o motivo porque este texto se chama “Pontapé na gaiola dourada”: nenhum outro filme terá ilustrado de uma forma tão clara, ainda que com humor (e, por vezes, de uma maneira eternecedora) o modo de vida dos portugueses em França, como o pequeno sucesso do luso decente Ruben Alves.

A verdade é que nem se quiséssemos imaginar uma forma ainda mais emocionante e arrebatadora de Portugal vencer a final do Euro conseguiríamos escrever uma história assim: sem o nosso melhor jogador quase desde o início, encostados às cordas até ao limite dos descontos, para depois emergir para o jogo no prolongamento e ver o nosso patinho feio fazer o golo decisivo. Um conto de fadas desportivo. Uma lição de humildade, tenacidade, querer, capacidade de superação e, claro, alguma sorte. Uma justiça poética.

 

Tão perto do céu

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Amanhã, para lá de uma final de uma competição futebolística muito importante, ocorrerá um choque de nações, de culturas, de histórias, de tristezas, alegrias, riqueza, pobreza e muito mais. Será o choque da humildade com a arrogância, das sopeiras com os artistas, dos pedreiros com os arquitetos, das empregadas de mesa com os chefes, do centro com a periferia.

Portugal é muito mais do que a imagem dos que partiram para França com pouco dinheiro e pouca formação como bagagem. E os portugueses de lá são hoje uma comunidade multifacetada, presente em todas as dimensões da vida francesa, da arte à indústria, do desporto à haute cuisine.  Mas subsiste a imagem da varina de preto num luto eterno, da empregada que toma conta do prédio, do clube dos portugueses onde a única leitura são os jornais desportivos do país de origem. Persiste o preconceito de que somos uma espécie humana menor do que os glamorosos franceses.

Esse desprezo transpira nas palavras escritas e faladas dos que consideram quase indigno Portugal estar na final do Euro 2016. Que não merecemos, que Ronaldo não finta uma dúzia (e aqui surgem as inevitáveis comparações com Messi), “só” joga em força, “só” usa a velocidade. É verdade que as exibições da seleção não encheram as medidas a ninguém, em nenhum dos 6 jogos disputados. É verdade que aquela tática não fará ninguém converter-se a esta modalidade. É verdade que o percurso, acaso ditado pelo sorteio e pelas classificações da fase de grupos, nos foi favorável. Porém, a equipa de Fernando Santos fez por merecer e nunca foi beneficiado por arbitragens -bem pelo contrário. A França não pode dizer o mesmo…

A seleção tem uma triste história de insucessos no confronto com os franceses. Batidos no épico 3-2 de Marselha, em 1984 e novamente vencidos, em 2000, pelo “golo de ouro” de Zidane. Nas duas ocasiões, fomos batidos por seleções francesas que venceriam a respetiva competição, equipas formadas por jogadores de invulgar qualidade – no caso da equipa de 2000, os então campeões do mundo em título. Está na altura de interromper este fado e nunca terão estado criadas as condições como agora para que isso possa acontecer.

Na final, sejamos gregos, sejamos o que for necessário para vencer, porque mesmo que isto seja apenas futebol, está muito mais de que desporto em causa. Não é uma guerra. Não é um combate. É uma afirmação de orgulho, uma manifestação de transcendência. O resto, o que eles pensam de nós, como disse o Ronaldo, que se foda!

A engenhosa vitória do tédio

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Se isto é o futebol do futuro, não existe futuro para o futebol, ou melhor, sempre que pensar em investir 2 horas de vida em entretenimento desportivo, vou escolher o xadrez, o golfe ou a equitação – o primeiro estimula mais o cérebro, o segundo envolve passeatas pela natureza e o terceiro mete cavalos e saltos “a sério” e em quantidade, não só penteados equídios e pulos ocasionais.

Ao sexto jogo, o Engenheiro ofereceu-nos uma vitória. Tal como Deus, que só criou o homem e os animais ao sexto dia, só que no caso do Nando Santinhos ainda não é tempo de descansar. E na verdade demorou seis e meio, mas já lá vamos.

Sim, este não é um texto apoteótico, nacionalóide. Nem um texto choninhas, daqueles tipos mal agradecidos que nem com a final se satisfazem. Este é um texto de um gajo que gosta de bola, que vibra com a seleção nacional mas que não confunde os meios com os fins, o entretenimento com a objetividade, enfim, futebol e resultados.

Como qualquer tuga interessado em bola e que tem uma ponta de identificação com os demais tugas, ontem sentei-me em frente à tv com uma réstia de esperança de que Portugal fizesse um jogo épico, com golos, emoção a rodos, e que pusesse fim ao brilharete daqueles voluntariosos e esforçados galeses de um modo categórico. A verdade é que isto não aconteceu, ainda que durante o jogo tenham existido momentos de brilhantismo e, claro, que tenhamos feito aquilo que os belgas (bem mais favoritos do que nós) foram incapazes de fazer.

A primeira parte do jogo foi um longo bocejo, igual a tantos bocejos que vivemos nos jogos precedentes de Portugal neste Euro 2016. Escutei ao intervalo um daqueles sábios comentadores dizer com ar de grande cientificidade que tinha sido um “período de estudo mútuo”…

Mesmo habituado a escutar grandes parvoíces Freitaslobísticas ditas em modo “estou aqui para vos iluminar”, esta custou-me muit0 a engolir. Então a clássica “fase de estudo” já vai em 45 minutos de duração?… Quando comecei a ver bola a sério, lá nos idos dos anos 80, a coisa não ia além dos 10 minutos iniciais. E se estudassem em casa? E se fizessem os TPC? Então os gajos já não sabem como os outros jogam depois de tanto artigo, comentário, vídeo, relatório e estatística? Depois de quase um mês de competição?

Explicação do tédio – teoria número 2: “estivemos a “adormecê-los” para desferirmos a estocada decisiva na segunda parte”. Depois da coisa ter acontecido, esta teoria parece-me muito bem esgalhada, inteligente e até genial, quase tanto como “os prognósticos só no final do jogo”…

Eu confesso que aqueles 45 minutos me deixaram desanimado. Não com a perspetiva de um resultado adverso, mas com a ideia de mais 45 ou até 75 minutos do mesmo. Os galeses, descontando as poucas cavalgadas do Bale e uma ou outra bola atirada para a nossa área, foram quase inofensívos. Os nossos fizeram um pouco mais, tiveram mais bola, mas mantiveram-se sempre mais focados em não deixar jogar do que em arriscar a felicidade.

Se isto é o futebol do futuro, não existe futuro para o futebol, ou melhor, sempre que pensar em investir 2 horas de vida em entretenimento, vou escolher o xadrez, o golfe ou a equitação – o primeiro estimula mais o cérebro, o segundo envolve passeatas pela natureza e o terceiro mete cavalos e saltos “a sério” e em quantidade, não só penteados equídios e pulos ocasionais.

Sim: se o que me espera como adepto deste desporto é isto, é pouco crível que dentro de um ou dois anos perca tempo com o assunto. Eu e mais uns milhões de pessoas. É que se o importante é ganhar (e os vencedores tendem a esquecer como chegaram lá, especialmente, se for de um modo pouco meritório ou até ilícito), não se esqueçam que só um pode fazê-lo e que todos os adeptos dos outros países, dos outros clubes, valorizam sobretudo o jogo, a emoção dos golos, o rasgo criativo, o mérito da construção coletiva, a façanha individual, em suma, aquilo que faz e fez deste desporto o mais seguido, o mais valorizado, o mais internacional.

A segunda parte foi diferente. Claro, por causa dos golos. Nunca saberemos se a equipa portuguesa veio efetivamente com indicações para atacar e arriscar mais, ou se aqueles minutos em que tudo que é decisivo aconteceu foram produto de acasos. Fiquei satisfeito, obviamente, até porque o primeiro golo foi uma conjugação fantástica de qualidade futebolística, capacidade atlética e querer, com a particularidade de termos feito a diferença naquilo que era tido como um ponto forte do adversário. Ronaldo livrou-se da marcação sem bloqueios e sem aldrabices, subiu, subiu, subiu… e rematou de cabeça como alguns não fazem com os pés. Foi um momento à “melhor do mundo”, que aconteceu na altura certa. Melhor mesmo, só se o repetir na final e for tão decisivo quanto este. Foi bom e libertador. Foi o terceiro e mais feliz momento do Ronaldo neste Euro, depois do arremesso do microfone da CM TV para o lago e dos 2 golos à Hungria. Por esta ordem de importância.

Depois dos golos, o jogo mudou. Aconteceu tudo demasiado depressa para os galeses conseguirem processar e reagir em conformidade. Se é que conseguiriam. Se é que seriam capazes. Se é que aqueles 11 portugueses o permitiriam. Até ao momento em que o madeirense fez a diferença os do País de Gales acreditavam em tudo: no Presto, nos Glutões, na virgindade da Virgem, no Trump, na regressão do Brexit e inclusive na chegada à final. O primeiro golo foi como um atropelamento coletivo na passadeira – eles não estavam a contar com aquilo, naquele contexto, naquela altura. E foi como se os atropelados por um carro desgovernado ainda se estivessem a tentar levantar e, antes de se poderem recompor minimamento do sucedido, lhes passasse um camião por cima. Isto foi o efeito do segundo golo: Game over!

Resumindo: há quem não ligue nada ao modo como lá chegamos e só se interesse na finalidade; há “líricos”, como eu, que não se revêem naquela modorra e entendem que o desporto, este desporto, é mais do que vitórias sonolentas, rigores táticos e triunfos cagões. Sim, cagões! Ou alguém acha que vencer uma modesta seleção de Gales, sem metade do seu (pouco) génio futebolístico, é um grande feito? Isto é a “normalidade”, tanto quanto os 4 a zero ao intervalo como que os franceses mataram as ilusões dos corajosos islandeses. Não é banal chegar à final, tem muito mérito, foi um esforço brutal, é um feito para recordar, mas não podemos esquecer que foi produto de pouco brilhantismo e muita sorte com a “escolha” dos adversários. Ficamos no grupo mais fraco e, em 6 jogos de uma fase final de uma grande competição, não enfrentamos nenhuma das seleções de “primeira linha” – nem França, nem Alemanha, nem Itália, nem Inglaterra, nem Espanha. Factos.

Por tudo isto, estou satisfeito por podermos ser campeões no domingo mas espero mais. Não do Ronaldo, nem do Pepe, nem do Nani,  nem do Patrício, nem do Quaresma, nem da maioria dos restantes (vá lá, do João Mário espero um bocadinho melhor e do Eliseu espero que não jogue…). Espero é que o Fernando Santos nos dê a oportunidade de ver o melhor que aqueles 23 podem fazer em campo. Sei que é pedir muito: agora que estamos quase lá, contra a França a jogar em casa ou contra os atuais campeões do mundo, vamos abdicar da fórmula mágica que nos permitiu aqui chegar?!… Mas é o que me faria orgulhoso, pela nossa seleção e, sobretudo, por este desporto.

 

O triunfo do Homo Pragmatoikos

Portugal_ em gregoEnquanto a malta discute se o melhor português no jogo de ontem face à Polónia foi o Renato Sanches ou o Pepe, aquilo que me ocorre dizer é que gostaria de ver um bocadinho de futebol “a sério”. O que tenho visto é a nossa seleção jogar futebol “à grega”. E jogar “à grega” é chato, muito chato de ver. Claro que é mais aborrecido perder, ser eliminado, e de vitórias morais estamos nós fartos. Mas que seria bom vencermos um jogo categoricamente, lá isso era.

Já lá vão 5 jogos e nem um triunfo com brilho conseguimos. Aliás, a única coisa parecida com um triunfo foi a vitória suada no prolongamento face à Croácia. Porém, conseguimos o fundamental:”live to fight another day”.  Perdoem-me os pragamáticos, mas futebol é mais do que isto, tem de existir emoção pela positiva, com golos e equipas a tentar ganhar. Por agora, o que temos é poucos golos e equipas a tentar não perder (sim, porque a culpa do aborrecidamente emocionante jogo de ontem é também dos polacos, que foram sempre mais “cagões” e medrosos dos que os nossos).

Paradoxalmente, é aqui que se impõe fazer um mea culpa: afinal, o Renato Sanches tem lugar naquele onze. Não por ser o jogador estratosférico merecedor de todos os elogios possíveis e imaginários, mas por ser um dos poucos (ou talvez o único) que tem a audácia de querer ganhar, de querer sempre jogar para a frente, apertar o adversário, correr com a bola, rematar, fazer acontecer. O resto da malta está toda muito concentrada nos seus papéis de “não desiquilibrar a equipa”, “não largar a marcação”, “ser rigoroso taticamente” e outras coisas que futebolês inventou para traduzir uma orientação tática onde o evitar perder se sobrepõe sempre ao querer ganhar. Exceto o Ronaldo, claro, que está tão comprometido com o seu papel de herói da pátria que tem falhado coisas inexplicáveis nos intervalos das expressões birrentas e das espreitadelas para o ecrã do estádio. O Renato, na sua irresponsável juventude, é o oposto de tudo isto – quer correr, chutar à baliza e marcar penalties (confesso que me ia dando uma coisinha má quando percebi que ele seria o segundo a tentar…). É por isso que, ao contrário do que era a minha convicção, deve jogar de início ou, no mínimo, jogar muitos minutos vindo do banco.

Mais 2 ou 3 coisas sobre o jogo de ontem: ainda bem que o William não pode jogar a meia-final e ainda bem que os polacos são uma equipa tão “conservadora” quanto este Portugal do Fernando Santos.

William parece ter sido ferrado por uma mosca Tsé-Tsé (o golo polaco é resultante de uma falha do Cédric mas quem deixa o ponta-de-lança polaco à vontade é o William) e os adversários passam por ele como se estivesse parado (e está, demasiadas vezes). Claro que quando o homem encosta neles, aquele corpinho de gigantone faz maravilhas, mas durante a primeiro meia hora, aquilo foi um terror. No resto do tempo, foi o que tem sido costume.

Neste jogo, ao contrário da eliminatória anterior, fomos superiores ao nosso adversário e, nessa medida, fez-se “justiça”. A verdade, porém, é que com um pouco mais de audácia (qualidade global?!…) e arrojo depois do 1-0 , os polacos teriam a questão resolvida a seu favor antes do final da primeira parte. Porque os 20/25 minutos iniciais de Portugal foram medonhos em termos defensivos, a equipa parecia confusa, ninguém marcava ninguém e, enfim, o segundo golo polaco poderia perfeitamente ter acontecido. Mas contentaram-se em defender a vantagem, deixaram os portugueses “assentar” o seu jogo e pagaram por isso. Só não pagaram mais cedo porque voltamos a não ver um penalty claro assinalado a nosso favor.

Nota final: o Eliseu, dentro do género, não esteve mal – os cruzamentos foram sempre para onde não era suposto, os adversários parecem sempre ser mais rápidos do que ele, mas o homem aguentou-se. Mas, previsivelmente, face à Bélgica, com um Hazard ou um Carrasco pela frente, é mesmo necessário contar com o Raphael. E com o Ronaldo. E com o Pepe. E com o Renato Sanches da primeira parte. E com mais audácia.

* “Portugal” em grego.

 

Agora sim, está tudo completo

Jumento

Olá, eu sou o Inuite.

Esta quarta iteração do Pobo do Norte já tinha quase tudo: polémica q.b., o pessoal amigo de volta, novos amigos, mas faltava ainda “qualquer coisa”. Ainda não tinha percebido o quê. Mas ontem, quando vi que tinha um comentário do lendário Inuite “fez-se luz”: faltavam os inergúmenos do costume!

Um blog como este é um ecossitema complexo e os Inuites deste mundo são os nossos babuínos, os nossos roedores, os nossos parasitas – são essenciais para o equilíbrio da coisa.

Sobre os comentários do dito senhor:

ddaasse chega a ser penoso ler-vos, só bolas no poste
mais a mais o puto Renato fez um jogão,encheu o campo, devia até ter jogado de início

Sobre ser penoso e, não obstante, andar por cá, ocorreram-me muitas piadas mas todas elas de recorte homofóbico… E como isto é um blog de gente decente, que respeita mesmo que não consuma, é melhor não ir por aí.

Sobre o Renato: disse e mantenho – o rapaz é um bom jogador, cheio de força, nervo e raça. Tecnicamente não é um cepo mas deixa (ainda?) muito a desejar. A sua inteligência posicional também e o critério com que tenta sair a jogar ou passa a bola também não é o melhor. Nestas condições, é particularmente hilariante ver nele, como já vi escrito, uma simbiose do Davids com o Seedorf – não, esperem, é verdade: a cor da pele é a mesma e o penteado tem algumas similitudes…

A questão da entrada ou não do Renato Sanches no 11 de Portugal é um bocadinho mais complicada do que os Inuites desta vida conseguem perceber. O problema é que dois dos escolhidos do Engenheiro estão positivamente nas lonas em termos físicos – especialmente o Moutinho mas também o André Gomes – e a insistência num e noutro tem dado tristes resultados. Já agora, o William também não tem estado brilhante e para quem tanto criticou a modorra do jogo inicial no Danilo é um bocadinho incoerente considerar como positivas as exibições dormentes do médio defensivo do SCP.

Muita mais do que o Renato, que considero estar bem no papel de suplente usado para dar capacidade de pressão e agressividade ao nosso meio-campo, gostaria de ver o Rafa, porventura, no lugar do João Mário, migrando este para a posição do André Gomes. Em função do que fizeram até agora, também prefiro o Cédric ao Vieirinha, o Ricardo Carvalho no banco e o José Fonte em campo, e manteria o Adrien a 8, no lugar do Moutinho. Ou seja, Patrício; Cédric, Pepe, Fonte e Raphael; Danilo, Adrien e João Mário; Nani, Rafa e Ronaldo.

Quanto a acertarmos muito ou pouco neste blog, lamento, mas o Inuite bateu na porta errada: isto não é o portal da astróloga Maya.

 

Na iminência de vá lá saber-se o quê 

Gostaria de dizer que estou otimista. Mas não estou. E não é por causa dos croatas, que são uma boa equipa, com muitos bons jogadores. O problema é não saber o que vale a nossa equipa. Ou se existe uma ideia de jogo de equipa sequer. Aqueles três empates deixaram-me completamente descrente. 

Num dia bom, o Ronaldo pode ser fazer algo inacreditável. Em dias normais, isso não chega. É por isso que dá vontade de rir escutar sem cessar que estamos em França para ganhar isto. 

Pode ser que me engane. Mas aquela seleção portuguesa não engana ninguém: é uma colagem tática apressada e tem jogadores que estão muito longe da sua melhor forma.

Ronaldo e a triste história lusa do tiro ao boneco

Este post usa argumentos tipo “Guerra” – não tem gráficos marotos em Excel mas tem estatísticas, ena!!!, e ainda por cima oficiais (da UEFA).

Vem esta prosa a propósito da “coincidência” de ainda só termos marcado um golo em 180 minutos de jogo face a equipas, vá lá, “algo acessíveis”.

É que neste Euro 2016, segundo a UEFA, o Ronaldo já fez – respirem fundo – 22 remates, sim, vinte e duas tentativas… sem sucesso. Comparativamente, o seu coleguinha do Real Madrid, o Bale, fez “apenas” 11, ou seja, metade, em 3 jogos… e marcou 3 golos!!! Mas o “mistério” desta improbabilidade estatística resolve-se rapidamente quando descobrimos que dos tais 22 remates, 7 foram para fora, 10 foram interceptados e, claro, sobram apenas 5 passíveis de se transformarem em golo. Que não aconteceu. Nem com o jogo parado e o cabelo cuidadosamente penteado.

Colocado sob a perspectiva colectiva, o deprimente desempenho “rematístico” do Ronaldo faz ainda mais sentido (mesmo que a coexistência das palavras “colectivo” e ” Ronaldo” na mesma frase seja algo bizarra e afastada da realidade). Portugal rematou 50 vezes em 2 jogos – sim, perceberam bem, meia centena de intenções concretizadas de golos… que, excepto por uma mísera vez, ficaram por entrar na baliza.

Sim, o Ronaldo é “o melhor do mundo”. Ou para os apreciadores do Messi, o segundo “melhor do mundo”. Isso não muda por ter duas actuações desastradas e desastrosas. O gajo é mesmo muito bom, foi e ainda é, e só vamos voltar a ter um destes novamente dentro de 20 anos. Mas deveria ser motivo para reflexão o facto de uma selecção com um conjunto de matrecos esforçados, como é o caso do País de Gales (ok, para lá do Bale têm o Aarom Ramsey), colocada num grupo bem mais complicado que o nosso, já estar apurada e ter marcado muitos golos. Talvez valha a pena relembrar que o futebol é um jogo colectivo e que não é com Messias que lá vamos, mesmo que os milagres futebolísticos aconteçam com maior assiduidade quando se tem na equipa um predestinado como o nosso madeirense.

Morcões Douro 2016 – “Gajo sobrevalorizado do ano” e “Melga do ano”

O tempo é um bem escasso e por entre os jogos do Euro 2016 e as múltiplas aquisições fantasma noticiadas pelos jornais desportivos sobra pouco espaço para análises sérias, cientificamente sustentadas e independentes… Por isso mesmo, cá vai o resto dos Morcões Douro, antes que chegue o natal e ainda estejamos a falar da infeliz época 2015/2016.

Para os mais distraídos, os “Morcões Douro” já atribuídos são:

Dos que falta atribuir:

  • Prémio “Gajo sobrevalorizado do ano”: Renato Sanches

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Este era mesmo difícil de adivinhar, não é? 80 milhões, certo?… Se conseguir ir à lua em menos de 10 segundos e assar um javali selvagem num microondas!

O puto não tem culpa; o problema são todos aqueles jornalistas desportivos benfiquistas muito isentos que povoam as redacções dos nossos  órgãos de informação.

E ainda não acabou: se o trancinhas calha de meter um golo no Europeu, fica logo ao nível de adoração patética só garantido ao Ronaldo na sua versão Irinesca.

  • Prémio “Melga do ano”: Pedro Guerra

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O bucha esteve em grande  – enorme pleonasmo 🙂 E conseguiu ser imensamente regular nessa difícil tarefa de superar a gigantesca galeria de gajos irritantes que o Benfica fez sempre questão de colocar nos media, desde o repelente Cervan, passando pelo rústico Malheiro e terminando em mais um isento jornalista  vermelhóide chamado João Gabriel.

Guerra é top da melguice. Assim, de repente, só um outsider como o Barbas lhe poderia roubar o prémio do próximo ano. Aguardemos.

Ainda faltam estes:

  • Prémio “Roubo de igreja do ano”
  • Prémio “Vitória do ano”
  • Prémio “Derrota do ano”
  • Prémio “Empate do ano”
  • Prémio “Jogador do ano – FCP”
  • Prémio “Jogador do ano – nacional”
  • Prémio “Jogador do ano – internacional”
  • Prémio “Treinador do ano – FCP”
  • Prémio “Treinador do ano – nacional”
  • Prémio “Treinador do ano – internacional”
  • Prémio “Equipa do ano – FCP”
  • Prémio “Equipa do ano – nacional”
  • Prémio ” Equipa do ano – internacional”
  • Prémio “Programa de desporto do ano”
  • Prémio “Dirigente desportivo, agente, trapaceiro ou as 3 coisas juntas do ano”
  • Prémio “Carreira, já não te posso aturar”
  • Prémio “Morcão Douro do ano”

Não desesperem, pode ser que sejam atribuídos antes do Fernando Santos  voltar de França.

Nota: o “so called” jornalista João Malheiro voltou “à ribalta” recentemente pelas razões mais comuns para um troglodita ser famoso: manifestações de preconceito e clamorosa ignorância. As últimas notícias dão-no como autor de frases que incluem coisas como “sou muito macho” e  “faz mal à saúde ser homossexual”, quando instado a falar na CMTV sobre o atentado à discoteca gay em Orlando. Alegadamente, esta criatura acha que ser homossexual é uma doença. Eu acho o mesmo em relação ao benfiquismo fundamentalista dele, mas nunca o afirmaria com o ar de quem acabou de escrever um artigo para a Science sobre o assunto. Mesmo na CMTV…

A culpa é do (insira o nome)

Os islandeses são maus, porque são fortes, porque só defendem, porque empataram e recolheram a malta toda na sua área, porque dão muito pau, porque arremessam a bola para longe com os lançamentos de linha lateral, etc., etc. Na realidade, as desculpas abundam porque empatamos um jogo que deveríamos ter ganho.

Não gostei das declarações do Ronaldo. Nem da repetição da frase feita “isto não é como começa mas como acaba” pelo Nani, pelo Quaresma e mais alguém cujo nome não me ocorre. São desculpas de mau “empatador”. Mas gostei ainda menos da depressão colectiva e da tendência para a recriminação expressa nas redes sociais.

Os toscos da Islândia  (que não são assim tão “toscos”) fizeram o que sabem fazer, com os fracos meios humanos que têm, com a (in)experiência que possuem em grandes competições internacionais e com muito empenho. Não merecem censura – nós é que partimos embalados por um 7-0 e pela cantiga de que “vamos a França para ganhar isto”. Ficar-nos-ia bem dar os parabéns aos islandeses, reconhecer a nossa azelhice e prometer fazer melhor nos próximos jogos. Era simples e era honesto.

Por outro lado, não vale a pena desatar a arranjar culpados do naufrágio e salvadores da pátria (entenda-se “Vieirinhas” e “Renatos”…) em função de um só jogo. Por exemplo, o alegado “melhor jogador do campeonato português” fez a pior exibição que eu já o vi fazer esta época: deve então o João Mário sair do 11? E foi por causa dele que falhamos quase todas as oportunidades que criamos? E o Ronaldo passou a ser um matreco convencido só porque teve uma performance infeliz?

Este empate pode ter sido uma boa forma de fazer o pessoal “descer à terra”. Mostrar que temos uma selecção acima da média, com um jogador extraordinário, mas que o equilíbrio será a nota dominante deste europeu e que, já agora, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Itália e Inglaterra são conjuntos com mais soluções do que o nosso.