Pontapé na gaiola dourada

IMG_5162Para quem, como eu, foi tão crítico em relação à forma de actuar da nossa equipa ao longo dos 6 jogos que precederam a final, seria fácil dizer que estava errado, agora que todas as falhas, todos os erros, todas as hesitações foram esquecidas por esta conquista. Mas não é verdade: a equipa de Portugal foi demasiado conservadora nos embates com equipas notoriamente mais fracas (Islândia, Áustria, Hungria e Gales) e surpreendentemente expectante nos confrontos com equipas de valor mais próximo (Croácia e Polónia).

Daí que, ironicamente, fizesse (finalmente) sentido jogar contra a França como sempre jogamos neste torneio. Frente a uma equipa muito moralizada, com jogadores confiantes e contando com o melhor marcador da competição, teríamos que assumir menores riscos, usar mais o contragolpe e atacar pela certa. Claro que o incrível sucesso obtido legitima todas escolhas de Fernando Santos, por mais discutíveis que possam ter sido. E isso é o que fica. É isso que ficará na memória de quem viveu isto.

O jogo foi, como dificilmente poderia deixar de ser, um prolongado sofrimento. Sem fazer maravilhas, os franceses criaram oportunidades em quantidade suficiente para vencer nos 90 minutos e a maior de todas, um remate ao poste no prolongamento, teria por certo decidido a final. Um pouco antes, Griezmann tinha falhado o desvio de cabeça na pequena área portuguesa.

Por contraste, o nosso ataque foi literalmente inofensivo durante 90 minutos, tal como Rui Patrício se revelou intransponível sempre que necessário – para parar a cabeçada de Griezmann na primeira parte, o remate violento de Sissoko na segunda e grande oportunidade de Giroud antes de ser substituído. De um total de 9 remates em 120 minutos (metade do que fizeram os franceses), apenas um dos dirigidos à baliza de Lloris teve lugar nos 90 minutos iniciais (remate acrobático do Quaresma na sequência de um cruzamento demasiado largo do Nani que ia saindo bem). Os outros dois ocorreram no prolongamento: a cabeçada do Éder e o remate vitorioso deste mal-amado. O livre do Raphael que foi foi á barra, sendo porventura a melhor oportunidade portuguesa antes do golo, entra noutra categoria estatística.

Mas os números permitem também corroborar a sensação que ficou no final: Portugal venceu com justiça porque tendo tido a sorte de resistir no “período regulamentar”, foi quase sempre superior no prolongamento. Algo que se explica com a notória quebra física dos bleus mas também com a mudança radical que a entrada do nosso número 9 em jogo ditou. Antes e depois do golo, Éder ganhou disputas de cabeça que antes tinham sido sistematicamente dominadas pelos centrais franceses, segurou a bola no ataque e sofreu faltas que permitiram ganhar metros no ataque e momentos para a equipa respirar melhor. No tempo extra e apesar de terem estado 12 minutos em desvantagem, os franceses apenas conseguiram fazer um remate digno de figurar nas estatísticas da UEFA  – um pontapé de Martial que nem sequer chegou à baliza portuguesa.

No que diz respeito à “moral” do resultado: a seleção de futebol ofereceu aos 11 milhões de portugueses um motivo para comemorar, mas este resultado foi muito mais do que isso para emigrantes e luso descendentes que vivem em França. Foi a resposta a muitos anos de humilhações, algumas resultantes do mais puro racismo e arrogância cultural, algumas auto-inflingidas pela ignorância, pela falta de poder para dizer não, pelo hábito de fazer o que os outros não querem e serem discretos ao ponto de nem serem notados. É esse o motivo porque este texto se chama “Pontapé na gaiola dourada”: nenhum outro filme terá ilustrado de uma forma tão clara, ainda que com humor (e, por vezes, de uma maneira eternecedora) o modo de vida dos portugueses em França, como o pequeno sucesso do luso decente Ruben Alves.

A verdade é que nem se quiséssemos imaginar uma forma ainda mais emocionante e arrebatadora de Portugal vencer a final do Euro conseguiríamos escrever uma história assim: sem o nosso melhor jogador quase desde o início, encostados às cordas até ao limite dos descontos, para depois emergir para o jogo no prolongamento e ver o nosso patinho feio fazer o golo decisivo. Um conto de fadas desportivo. Uma lição de humildade, tenacidade, querer, capacidade de superação e, claro, alguma sorte. Uma justiça poética.

 

Anúncios

2 thoughts on “Pontapé na gaiola dourada

  1. Uma justiça poética que tem deixado muita gente com azia. Pelos vistos, descobriram agora que existe uma coisa chamada futebol cínico, como se fôssemos nós, portugueses, a inventar a coisa.

    A primeira competição de seleções que eu vi foi o mundial de Espanha. A Itália terminou a fase de grupos com 3 empates e foi apurada porque marcou mais um golo do que os Camarões. Depois disso, despachou a seleção com o futebol mais espetacular que eu alguma vez vi e, no último jogo, ganhou a uma Alemanha que chegou à final aos tropeções (e, curiosamente, depois de vencer a França nos penáltis). Foi há 34 anos! Depois disso, já tivemos ínúmeros exemplos de equipas que venceram competições com um futebol cínico e resultadista, sendo que o exemplo que mais nos toca é o da Grécia, em 2004. Caem-nos agora em cima por termos utilizado a mesma fórmula?

    A verdade é que, como disse Deschamps (honra lhe seja feita), já tivemos seleções mais talentosas que jogaram um futebol muito mais atraente, mas não ganharam e esta ganhou. O futebol é assim, às vezes não ganha a equipa mais espetacular, não ganha a melhor equipa, ganha a equipa que menos se espera. Querem o quê, um pedido de desculpas e uma nota de devolução a acompanhar a taça? Rídículo, cínico e nojento.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s