A engenhosa vitória do tédio

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Se isto é o futebol do futuro, não existe futuro para o futebol, ou melhor, sempre que pensar em investir 2 horas de vida em entretenimento desportivo, vou escolher o xadrez, o golfe ou a equitação – o primeiro estimula mais o cérebro, o segundo envolve passeatas pela natureza e o terceiro mete cavalos e saltos “a sério” e em quantidade, não só penteados equídios e pulos ocasionais.

Ao sexto jogo, o Engenheiro ofereceu-nos uma vitória. Tal como Deus, que só criou o homem e os animais ao sexto dia, só que no caso do Nando Santinhos ainda não é tempo de descansar. E na verdade demorou seis e meio, mas já lá vamos.

Sim, este não é um texto apoteótico, nacionalóide. Nem um texto choninhas, daqueles tipos mal agradecidos que nem com a final se satisfazem. Este é um texto de um gajo que gosta de bola, que vibra com a seleção nacional mas que não confunde os meios com os fins, o entretenimento com a objetividade, enfim, futebol e resultados.

Como qualquer tuga interessado em bola e que tem uma ponta de identificação com os demais tugas, ontem sentei-me em frente à tv com uma réstia de esperança de que Portugal fizesse um jogo épico, com golos, emoção a rodos, e que pusesse fim ao brilharete daqueles voluntariosos e esforçados galeses de um modo categórico. A verdade é que isto não aconteceu, ainda que durante o jogo tenham existido momentos de brilhantismo e, claro, que tenhamos feito aquilo que os belgas (bem mais favoritos do que nós) foram incapazes de fazer.

A primeira parte do jogo foi um longo bocejo, igual a tantos bocejos que vivemos nos jogos precedentes de Portugal neste Euro 2016. Escutei ao intervalo um daqueles sábios comentadores dizer com ar de grande cientificidade que tinha sido um “período de estudo mútuo”…

Mesmo habituado a escutar grandes parvoíces Freitaslobísticas ditas em modo “estou aqui para vos iluminar”, esta custou-me muit0 a engolir. Então a clássica “fase de estudo” já vai em 45 minutos de duração?… Quando comecei a ver bola a sério, lá nos idos dos anos 80, a coisa não ia além dos 10 minutos iniciais. E se estudassem em casa? E se fizessem os TPC? Então os gajos já não sabem como os outros jogam depois de tanto artigo, comentário, vídeo, relatório e estatística? Depois de quase um mês de competição?

Explicação do tédio – teoria número 2: “estivemos a “adormecê-los” para desferirmos a estocada decisiva na segunda parte”. Depois da coisa ter acontecido, esta teoria parece-me muito bem esgalhada, inteligente e até genial, quase tanto como “os prognósticos só no final do jogo”…

Eu confesso que aqueles 45 minutos me deixaram desanimado. Não com a perspetiva de um resultado adverso, mas com a ideia de mais 45 ou até 75 minutos do mesmo. Os galeses, descontando as poucas cavalgadas do Bale e uma ou outra bola atirada para a nossa área, foram quase inofensívos. Os nossos fizeram um pouco mais, tiveram mais bola, mas mantiveram-se sempre mais focados em não deixar jogar do que em arriscar a felicidade.

Se isto é o futebol do futuro, não existe futuro para o futebol, ou melhor, sempre que pensar em investir 2 horas de vida em entretenimento, vou escolher o xadrez, o golfe ou a equitação – o primeiro estimula mais o cérebro, o segundo envolve passeatas pela natureza e o terceiro mete cavalos e saltos “a sério” e em quantidade, não só penteados equídios e pulos ocasionais.

Sim: se o que me espera como adepto deste desporto é isto, é pouco crível que dentro de um ou dois anos perca tempo com o assunto. Eu e mais uns milhões de pessoas. É que se o importante é ganhar (e os vencedores tendem a esquecer como chegaram lá, especialmente, se for de um modo pouco meritório ou até ilícito), não se esqueçam que só um pode fazê-lo e que todos os adeptos dos outros países, dos outros clubes, valorizam sobretudo o jogo, a emoção dos golos, o rasgo criativo, o mérito da construção coletiva, a façanha individual, em suma, aquilo que faz e fez deste desporto o mais seguido, o mais valorizado, o mais internacional.

A segunda parte foi diferente. Claro, por causa dos golos. Nunca saberemos se a equipa portuguesa veio efetivamente com indicações para atacar e arriscar mais, ou se aqueles minutos em que tudo que é decisivo aconteceu foram produto de acasos. Fiquei satisfeito, obviamente, até porque o primeiro golo foi uma conjugação fantástica de qualidade futebolística, capacidade atlética e querer, com a particularidade de termos feito a diferença naquilo que era tido como um ponto forte do adversário. Ronaldo livrou-se da marcação sem bloqueios e sem aldrabices, subiu, subiu, subiu… e rematou de cabeça como alguns não fazem com os pés. Foi um momento à “melhor do mundo”, que aconteceu na altura certa. Melhor mesmo, só se o repetir na final e for tão decisivo quanto este. Foi bom e libertador. Foi o terceiro e mais feliz momento do Ronaldo neste Euro, depois do arremesso do microfone da CM TV para o lago e dos 2 golos à Hungria. Por esta ordem de importância.

Depois dos golos, o jogo mudou. Aconteceu tudo demasiado depressa para os galeses conseguirem processar e reagir em conformidade. Se é que conseguiriam. Se é que seriam capazes. Se é que aqueles 11 portugueses o permitiriam. Até ao momento em que o madeirense fez a diferença os do País de Gales acreditavam em tudo: no Presto, nos Glutões, na virgindade da Virgem, no Trump, na regressão do Brexit e inclusive na chegada à final. O primeiro golo foi como um atropelamento coletivo na passadeira – eles não estavam a contar com aquilo, naquele contexto, naquela altura. E foi como se os atropelados por um carro desgovernado ainda se estivessem a tentar levantar e, antes de se poderem recompor minimamento do sucedido, lhes passasse um camião por cima. Isto foi o efeito do segundo golo: Game over!

Resumindo: há quem não ligue nada ao modo como lá chegamos e só se interesse na finalidade; há “líricos”, como eu, que não se revêem naquela modorra e entendem que o desporto, este desporto, é mais do que vitórias sonolentas, rigores táticos e triunfos cagões. Sim, cagões! Ou alguém acha que vencer uma modesta seleção de Gales, sem metade do seu (pouco) génio futebolístico, é um grande feito? Isto é a “normalidade”, tanto quanto os 4 a zero ao intervalo como que os franceses mataram as ilusões dos corajosos islandeses. Não é banal chegar à final, tem muito mérito, foi um esforço brutal, é um feito para recordar, mas não podemos esquecer que foi produto de pouco brilhantismo e muita sorte com a “escolha” dos adversários. Ficamos no grupo mais fraco e, em 6 jogos de uma fase final de uma grande competição, não enfrentamos nenhuma das seleções de “primeira linha” – nem França, nem Alemanha, nem Itália, nem Inglaterra, nem Espanha. Factos.

Por tudo isto, estou satisfeito por podermos ser campeões no domingo mas espero mais. Não do Ronaldo, nem do Pepe, nem do Nani,  nem do Patrício, nem do Quaresma, nem da maioria dos restantes (vá lá, do João Mário espero um bocadinho melhor e do Eliseu espero que não jogue…). Espero é que o Fernando Santos nos dê a oportunidade de ver o melhor que aqueles 23 podem fazer em campo. Sei que é pedir muito: agora que estamos quase lá, contra a França a jogar em casa ou contra os atuais campeões do mundo, vamos abdicar da fórmula mágica que nos permitiu aqui chegar?!… Mas é o que me faria orgulhoso, pela nossa seleção e, sobretudo, por este desporto.

 

2 thoughts on “A engenhosa vitória do tédio

  1. Afinal não concordo consigo…quantas vezes perdemos (seleção) a jogar bem? Contra a França de Platini, contra a França de Zidane e Pires… perdemos porque jogamos bem e não fomos astutos!
    No domingo contra esta França versão Congo 2.0 temos de ser mais espertos.
    Para falar a verdade que se lixe o futebol ; “Concierges au pouvoir, já!” domingo, “je suis portugal ! “

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    • Não existe mal nenhum em discordar. Eu também não partilho dessa ideia de que tenhamos sido efetivamente superiores à França de Zidane e muito menos à de Platini, Giresse, Tigana, Amoros e tantos outros. Não precisamos de deixar de ser astutos. Precisamos de jogar como campeões. Com equilíbrio, sem medo. Este Portugal joga tolhido, joga para não perder. Chegou para as Croácias e Polónias deste mundo. Não chegará para bater alemães ou franceses.

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