O triunfo do Homo Pragmatoikos

Portugal_ em gregoEnquanto a malta discute se o melhor português no jogo de ontem face à Polónia foi o Renato Sanches ou o Pepe, aquilo que me ocorre dizer é que gostaria de ver um bocadinho de futebol “a sério”. O que tenho visto é a nossa seleção jogar futebol “à grega”. E jogar “à grega” é chato, muito chato de ver. Claro que é mais aborrecido perder, ser eliminado, e de vitórias morais estamos nós fartos. Mas que seria bom vencermos um jogo categoricamente, lá isso era.

Já lá vão 5 jogos e nem um triunfo com brilho conseguimos. Aliás, a única coisa parecida com um triunfo foi a vitória suada no prolongamento face à Croácia. Porém, conseguimos o fundamental:”live to fight another day”.  Perdoem-me os pragamáticos, mas futebol é mais do que isto, tem de existir emoção pela positiva, com golos e equipas a tentar ganhar. Por agora, o que temos é poucos golos e equipas a tentar não perder (sim, porque a culpa do aborrecidamente emocionante jogo de ontem é também dos polacos, que foram sempre mais “cagões” e medrosos dos que os nossos).

Paradoxalmente, é aqui que se impõe fazer um mea culpa: afinal, o Renato Sanches tem lugar naquele onze. Não por ser o jogador estratosférico merecedor de todos os elogios possíveis e imaginários, mas por ser um dos poucos (ou talvez o único) que tem a audácia de querer ganhar, de querer sempre jogar para a frente, apertar o adversário, correr com a bola, rematar, fazer acontecer. O resto da malta está toda muito concentrada nos seus papéis de “não desiquilibrar a equipa”, “não largar a marcação”, “ser rigoroso taticamente” e outras coisas que futebolês inventou para traduzir uma orientação tática onde o evitar perder se sobrepõe sempre ao querer ganhar. Exceto o Ronaldo, claro, que está tão comprometido com o seu papel de herói da pátria que tem falhado coisas inexplicáveis nos intervalos das expressões birrentas e das espreitadelas para o ecrã do estádio. O Renato, na sua irresponsável juventude, é o oposto de tudo isto – quer correr, chutar à baliza e marcar penalties (confesso que me ia dando uma coisinha má quando percebi que ele seria o segundo a tentar…). É por isso que, ao contrário do que era a minha convicção, deve jogar de início ou, no mínimo, jogar muitos minutos vindo do banco.

Mais 2 ou 3 coisas sobre o jogo de ontem: ainda bem que o William não pode jogar a meia-final e ainda bem que os polacos são uma equipa tão “conservadora” quanto este Portugal do Fernando Santos.

William parece ter sido ferrado por uma mosca Tsé-Tsé (o golo polaco é resultante de uma falha do Cédric mas quem deixa o ponta-de-lança polaco à vontade é o William) e os adversários passam por ele como se estivesse parado (e está, demasiadas vezes). Claro que quando o homem encosta neles, aquele corpinho de gigantone faz maravilhas, mas durante a primeiro meia hora, aquilo foi um terror. No resto do tempo, foi o que tem sido costume.

Neste jogo, ao contrário da eliminatória anterior, fomos superiores ao nosso adversário e, nessa medida, fez-se “justiça”. A verdade, porém, é que com um pouco mais de audácia (qualidade global?!…) e arrojo depois do 1-0 , os polacos teriam a questão resolvida a seu favor antes do final da primeira parte. Porque os 20/25 minutos iniciais de Portugal foram medonhos em termos defensivos, a equipa parecia confusa, ninguém marcava ninguém e, enfim, o segundo golo polaco poderia perfeitamente ter acontecido. Mas contentaram-se em defender a vantagem, deixaram os portugueses “assentar” o seu jogo e pagaram por isso. Só não pagaram mais cedo porque voltamos a não ver um penalty claro assinalado a nosso favor.

Nota final: o Eliseu, dentro do género, não esteve mal – os cruzamentos foram sempre para onde não era suposto, os adversários parecem sempre ser mais rápidos do que ele, mas o homem aguentou-se. Mas, previsivelmente, face à Bélgica, com um Hazard ou um Carrasco pela frente, é mesmo necessário contar com o Raphael. E com o Ronaldo. E com o Pepe. E com o Renato Sanches da primeira parte. E com mais audácia.

* “Portugal” em grego.

 

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One thought on “O triunfo do Homo Pragmatoikos

  1. Afinal, vamos jogar contra Bale & Cia …não haverá esse Carrasco, mas, vamos precisar do Raphael e do nosso melhor Pepe e de bastantes pilhas extra !
    E de todos os Santos a quem o homo pragmatoikos reza!
    Mas, até que tem sido interessante este percurso meio a fazer de morto para dar a estocada no momento certo!

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