Tragédias, anedotas e garganta

A notícia marcante dos últimos dias é vigésima oitava confirmação de que o Sebordem está economicamente liquidado e dependente da vontade de um potencial messias russo ou árabe ter um clube em Portugal. Porto e Benfica também não estão bem, mas a relação entre o que valem os seus activos e os seus passivos é (supostamente?!) positiva. Até quando, logo se verá.

Mas a parte cómica desta notícia foi a oportunidade de voltar a ouvir o patusco do Sousa Cintra, do qual escutei hoje, na Antena 1, as seguintes palavras: “quando eu era presidente, tínhamos a melhor equipa de Portugal e uma das melhores da Europa” e que “só não ganhamos porque não havia verdade desportiva em Portugal”.

Sobre a parte da “verdade desportiva” nem vale a pena falar, porque é um argumento estafado e serve para justificar quase tudo. Mas, porque vale a pena olhar um pouco para o que foi o futebol do Sporting no mandato deste senhor, vamos abrir uma excepção e falar da história do Sebordem.

Em 1989/1990, a primeira época em que Cintra liderou, os lagartos tinham Ivkovic, Oceano, Carlos Xavier, Carlos Manuel, Cadete, Marlon, Paulinho Cascavel e… Gomes! Mas também tinham “pérolas” como Venâncio, Leal, Valtinho, Marinho e mais um monte de gente que não deixou nem grande memória nem grande percurso posterior. Sim, claro, tinha um rapaz chamado Figo, acabado de estrear (fez 3 jogos) e a época foi orientada por esse génio da táctica no Nilo, de seu nome Manuel José, ao qual sucedeu Raul Águas após mais um Natal indigesto. Escusado será dizer que não ganharam nada… Já agora, para comparação e apesar de alguns erros de casting (como o de Nascimento, Toni, Pingo e Kiki) o Porto tinha Baía, Demol, Branco, André, Semedo, Jaime Magalhães, Domingos, Rui Águas e Madjer. E acabamos o campeonato em primeiro lugar, com mais 13 pontos do que o Dream Team do Sebordem.

Na época seguinte, para além de ter estreado Peixe e Paulo Torres, Cintra apostou tudo naquele que seria, nas suas sábias palavras, “o novo Eusébio”: era brasileiro, chamava-se Careca e apesar de ter alinhado em 30 jogos marcou apenas 8 golos. Em 1990/1991, o Porto ganhou a Taça, perdeu o campeonato para o Benfica por 2 pontos e o Sebordem acabou, uma vez mais, a 13 pontos do vencedor… e sem nenhum título.

A época de 1991/1992 ficou marcada pela partida de Xavier e Oceano para a Real Sociedad, pela afirmação de Figo e, parcialmente, de Emílio Peixe, bem como pela confirmação do talento de Balakov (que tinha chegado a meio da época anterior). Para não variar, o treinador (Marinho Peres) foi despachado a meio da época e o Sebordem, que uma vez mais não ganhou nada, acabou num brilhante 4º lugar, mas somente a 12 pontos do Porto campeão…

Continuando a saga da Golden Era Sousacintriana, em 1992/1993 o Sporting apostou em Bobby Robson e numa carrada de novos jogadores: Valckx, Barny, Capucho, Cherbakov, Poejo, Yordanov, Juskowiak e Porfírio. O resultado? Bem, o treinador aguentou-se, talvez porque apesar de não terem ganho nada, voltaram ao habitual 3º lugar e ficaram a uns meros 9 pontos da equipa vencedora, uns rapazes do norte que tinham jogadores como Jorge Costa, Aloísio, Timofte e, por exemplo, um búlgaro chamado Kostadinov.

1993/1994 foi a temporada das maiores malandrices e borradas de Sousa Cintra, que conseguiu “roubar” Pacheco e Paulo Sousa aos rivais da Segunda Circular, e quase fazia o mesmo com João Vieira Pinto. Por mero acaso, ou talvez não, esta é a época do célebre 3-6 em Alvalade frente ao SLB, no qual JVP foi o melhor artista. E foi também a época em que este líder nato cometeu a proeza de despachar Bobby Robson quando a equipa liderava o campeonato para a entregar a Carlos Queiroz… que terminou no incontornável  3º posto, mas apenas a 3 pontos do campeão Benfica. Mais irónico ainda foi ver o Sebordem de Queiroz perder a final da Taça com o Porto… de Bobby Robson! Mais uma época gloriosa: zero conquistas.

O ano final do reinado de Cintra é iniciado, uma vez mais, com muita expectativa e um camião de craques: Marco Aurélio, Naybet, Sá Pinto, os regressados Xavier e Oceano, Chiquinho Conde, Amunike e o estreante Dani. Como seria previsível, o Sporting não venceu o campeonato 1994/1995, embora tenha conseguido um feito inigualável durante o período Cintra que foi o de terminar em 2º lugar (a nove pontos do FCP). Mais irónico ainda é que o Sebordem viria a vencer a Taça de Portugal nessa época, mas Sousa Cintra havia deixado de ser o Presidente da nação lagarta desde a semana anterior…

Em suma, Cintra, o Midas da economia clubística verde e brilhante gestor da melhor equipa da Europa e, quem sabe, de Portugal, objectiva e oficialmente não ganhou coisa nenhuma. Apesar de isto ser um blog portista, acho que foi importante fazer esta evocação porque o dito senhor, por certo devido à idade, terá esquecido o muito que fez pelo Sebordem e era preciso que alguém lhe fizesse justiça.

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Update do post com o contributo do amigo “nusanto”: uma gravação da célebre entrevista telefónica durante a qual Sousa Cintra parte um vidro do carro com uma garrafa de água – simplesmente fabuloso.

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5 thoughts on “Tragédias, anedotas e garganta

  1. Muito bem escrito…e muito importante que a gente volte a dar à História o que a ela pertence. Estes gajos lá do sul, têm uma tendência para ficcionar a realidade, que é extraordinária!… Vêm coisas que mais ninguém viu, nos túneis p.ex. e cegam-se-lhes as vistinhas para certos penalties e foras de jogo, cotoveladas e pisões…mas, não é maldade, coitados, apenas imaginação de corações fervilhantes…

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  2. Muito bem esgalhada a posta. E que dizer daquele golo, se não estou em erro, frente ao Leiria em Alvalade, em que o Ricardo Avibom tira uma bola que estava metro e meio para lá da linha de golo, enquanto um patusco bandeirinha se mantinha impávido. Acto contínuo, acabado o lance, o tipo atira as sapudas mãos ao olho, como se lhe tivesse entrado um cisco, em jeito de justificação para a roubalheira.

    O SCP é diversão garantida. Bettencourt esteve quase ao nível de um Cintra, mas faltava-lhe a verve, o charuto e personagens de cabine à altura.

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  3. A “inteligência” estratégica de Sousa Cintra ficou provada quando despediu Bobby Robson – após uma azarada derrota do SCP em Viena com 3 afortunados remates, de fora da área, de um austríaco e com uma oportunidade flagrante de golo desperdiçada pelo ex-benfiquista Pacheco, uma eliminatória em que o SCP foi superior mas não teve a sorte do seu lado – quando soube que Pinto da Costa, após despedir Ivic, se preparava para contratar o Carlos Queirós. Ora Sousa Cintra esperando fazer rasteira a Pinto da Costa, antecipou-se e contratou Queirós, arranjando como desculpa a derrota em Viena, e isto, sublinhe-se, numa altura em que o Sporting ia em em 1º lugar no campeonato e a praticar o melhor futebol em Portugal e exibições de qualidade.

    Analisando bem a questão, nós portistas temos de estar gratos a Sousa Cintra, pois impediu, ao contratá-lo antecipadamente, Carlos Queirós de vir para o nosso FC Porto e deixou Bobby Robson livre para vir para o FC Porto.

    Um exemplo típico de esperteza saloia o Cintra.

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