Três a zero a brincar

O que mais impressiona neste FC Porto de Villas Boas é a tranquilidade. O jogo flui lentamente, por vezes abana com Hulk, ou estica com Varela, mas é tudo sincopado, geométrico. De repente, há uma aceleração e zás, golo. Como a serpente que hipnotiza o pássaro até ao momento fatal, o FC Porto adormece o adversário, joga com paciência, não tem pressa, e depois mete-a lá dentro. Foi assim com o Braga. Apesar de estar por duas vezes em desvantagem, a equipa nunca perdeu a cabeça. Foi assim com o Rapid, hoje. Se calhar todos queríamos que a equipa metesse o turbo e espetasse uma seizada nos austríacos. Provavelmente teria acontecido, mas Villas Boas não é Co Adriaanse e prefere ganhar com a solidez necessária a arriscar repetir episódios do tipo “Artmedia”. Não é por acaso que, apesar de termos ganho os oito jogos oficiais que fizemos, Villas Boas considera que temos muito a melhorar em termos defensivos. A sua busca pela perfeição é entusiasmante.

PS – Vi grande parte do Lille-Sporting enquanto aviava duas bifanas num cafezinho nas Antas e vi dois motivos de interesse: 1. Postiga marcou o terceiro golo oficial em dois anos (alguém ainda lamenta a sua saída?) 2. Aquele Salomão vai dar jogador. É gajo para daqui a uns dois ou três anos estar a brilhar de azul-e-branco (se a tradição se mantiver).

Apelo

Berrem bem alto, estrebuchem com muita espuma, façam voodoo ao Laurentino, boicotem os jogos fora, desistam da taça da liga, matem os árbitros, incendeiem autocarros, soltem os cães, batam em pessoas nos aeroportos, cuspam na olivedesportos, rezem a Jesus, façam peregrinações, convoquem os seis milhões, mas, por favor: NÃO TIREM O ROBERTO DA BALIZA.

Que saudades do Hermínio e do Ricardo Costa…

A Bola publica e Portugal treme:

“O Benfica entende que o que aconteceu em Guimarães, no passado sábado, ultrapassou tudo o que seria tolerável e prepara-se para dar um grande murro na mesa, susceptível de abalar os alicerces do futebol nacional. “

Será dos 9 pontos de atraso? Foi o Benquerença que contratou o Roberto? Foi “o sistema” que marcou os golos que o SLB sofreu? Sim, em Guimarães o Benfica pode queixar-se de 1 penalty por marcar e de 2 foras-de-jogo discutíveis – mas quem é esta gente para falar de “verdade desportiva” depois de terem vencido o “título dos túneis”?

Hulkaminho para o título

O Dragão assistiu a um dos melhores jogos da sua ainda curta história. Ambiente espectacular nas bancadas, imprevisibilidade no resultado até ao final, entrega sobre-humana por parte dos jogadores, e grandes golos. Ganhámos porque fomos melhores (e desculpa, Domingos, mas foi o Braga quem marcou nos dois únicos remates que fez à baliza, não o FCP) e porque soubemos virar o resultado com alma de campeão. E também porque temos um fora-de-série chamado Hulk, o tal que foi afastado da competição no ano passado do modo que todos nós sabemos.

Esta foi também uma vitória de resposta à execrável edição de A Bola de ontem, que se aliou às declarações de Jesus, Rui Costa e Vieira, numa atitude consertada de toque a rebate de modo a tapar os olhos à evidência de que o clube do bairro do Alto dos Moínhos não está tão eficaz como no ano passado no que diz respeito a sacar penaltis e expulsões nos primeiros 10 minutos dos jogos.

O Bode Respiratório

A Federação Portuguesa de Futebol dispensou finalmente Carlos Queirós, decisão que define claramente um culpado para a situação desportiva em que a selecção se encontra actualmente. E digo “finalmente” porque a vontade de encontrar um “bode expiatório” para o suposto fracasso no Mundial era indisfarçável e só estava a ser travada pela dimensão da indeminização a que, em condições normais, o Professor teria direito.

Madaíl, uma vez mais, demonstrou a falta de lealdade, desonestidade e de ausência de sentido de justiça que o caracteriza, e a trupe que governa a FPF dede meados dos anos 80 continuará a mandar neste circo, com pequenas variações nos protagonistas e muita gente que actua na sombra há demasiado tempo.

Queirós cumpriu os mínimos no Mundial, perdeu tangencialmente com a equipa que se viria a sagrar campeã e a única coisa que se lhe pode apontar nesse derradeiro jogo é que foi maior o receio de perder por muitos do que a audácia de tentar vencer correndo obviamente muitos riscos. A falta de ambição foi o maior pecado do Professor.

Quanto às qualidades e defeitos que fizeram dele uma escolha mais ou menos consensual na altura em que o foram buscar ao banco do Manchester United, estão todas lá: falta-lhe carisma, nervo, liderança sobre as vedetas e arrojo nas decisões, quer nas escolhas dos jogadores, quer nas reacções em pleno jogo; por outro lado, é um estudiioso do jogo, um homem de trabalho, tem um discurso sem tibiezas e um percurso muito valioso, ainda que mal sucedido sempre que esteve em causa a sua relação com equipas formadas por jogadores com estatuto. Em suma, o perfil ideal para um Director Técnico ou para um Adjunto interventivo – a soma de qualidades e defeitos que fez dele uma opção bem melhor do que o Scolari sem fazer dele uma opção satisfatória para um país que tem tão bons jogadores e que nunca venceu uma competição de “gente crescida”.

Selecção a meio gás

Estes dois jogos de apuramento para o Europeu confirmaram que a ressaca do Mundial vai ser dura e complicada. Perdemos a referência do meio-campo, Deco, e não temos quem a substitua. Para além disso, falta nervo e aço ao nosso meio-campo, onde jogadores como Raul Meireles, Moutinho, Tiago ou Manuel Fernandes seriam apenas razoáveis suplentes numa selecção como a Espanha, só para citar um exemplo. Na frente, fazer uns números de circo não chega. É preciso ser letal.
É claro que tivemos muito azar no jogo contra Chipre. E que hoje o Eduardo deu a sua contribuição para o descalabro. E que faltam, por lesão, jogadores suficientes para dar outra qualidade ao onze. Tudo isto é verdade, mas temos de aceitar que vamos entrar, ou já entrámos, num período de renovação, com jogadores a entrar na casa dos trinta anos, e que esse período de renovação deveria ser tratado com um cuidado e estabilidade que, neste momento, não existem.